Terceira carta de Madre Teodora à superiora (segunda parte)
A segunda parte desta terceira carta à Superiora traz uma das principais demonstrações da ação social da Irmã Maria Teodora no Brasil: quatro meses após estar em Itu, já havia iniciado um trabalho educacional com meninas negras, filhas de pessoas escravizadas. Se, por um lado, não pôde romper as amarras da falta de convivência entre as alunas brancas e negras, por outro mostra a preocupação e a satisfação na alfabetização dessas crianças, gratuitamente. A carta também traz a repercussão da presença das Irmãs de São José em Itu, naqueles primeiros meses da sua chegada, estrangeiras bem recebidas.
“Desde minha chegada a Itu, as tentações e as revoltas da natureza se fizeram sentir novamente; mas foi apenas passageiro, e a graça de Nosso Senhor sempre me sustentou. Dessas consolações, antegozo da felicidade do Céu, eu as deixei no oceano; mas, em seu lugar, o bom Mestre fez-me compreender, de uma maneira toda particular, que é preciso que eu me aplique, sem cessar, a caminhar sobre Seus passos no caminho da humilhação e da morte para mim mesma, fazendo com semblante sereno as coisas mais contrárias à natureza. A menor pequena satisfação, Ele me reprova fortemente e me faz pagar com vários dias de secura. Ele quer, pois, boa Mãe, que, de bom grado ou de mau grado, eu seja toda Dele sem reserva. Ele sabe tão bem fazer, esse amável Salvador; Ele tira tudo, e nas criaturas mais santas só faz encontrar insuficiência e, muitas vezes, amargura.
Agora, boa Mãe, deixe-me falar-lhe um pouco de minhas pobres pequenas negrinhas. Tenho vinte e seis, que vêm todas as tardes, desde uma hora até cinco; ensino-lhes o catecismo e o trabalho manual. É impossível expressar o contentamento que sinto em cuidar dessas pobres escravas. Já fui visitar os doentes várias vezes. Saímos também para passear com as pensionistas que, por enquanto, são em número de catorze. São todas crianças das principais famílias de Itu e dos arredores; quando não usam seu traje próprio, vestem-se como as moças do internato de Chambéry. São boas, essas crianças; fazem-se delas quase tudo o que se quer; mas, como todas as pessoas do país, são muito inconstantes. Temos também uma classe externa paga que, por enquanto, é composta apenas de quatro alunas. Parece que, agora, nossa obra começa a tomar forma; em geral, somos bem vistas e sobretudo respeitadas. Nossas alunas estão contentes, e seus pais também; mas somos tão observadas, tão vigiadas, que bastaria uma imprudência para fazer tudo fracassar. Ah! boa Mãe, é aqui que se tem necessidade do espírito de Nosso Senhor; sem isso, é impossível ter êxito em nossa empresa, que, humanamente considerada, está bem acima de nossas forças. O demônio já fez agir todos os recursos imagináveis para nos derrubar, mas até agora seus esforços só serviram para nos dar mais desconfiança de nós mesmas e mais confiança em Deus.”
Irmã Luiza Rodrigues I.S.J.
Luís Roberto de Francisco

