Terceira carta de Madre Teodora à superiora (primeira parte)
A terceira carta enviada pela Irmã Maria Teodora à superiora na França é resposta da que recebeu. A primeira parte é uma “confissão de santidade”, de quem fazia das mortificações e preocupações com a alma uma constante, compartilhando somente com a superiora as aflições da viagem e da falta de comunicação. Revela também a precariedade dos correios no Brasil!
“Itu, Santa Casa de Misericórdia, 21 de outubro de 1859
Boa e sempre mais querida Mãe,
Recebi ontem sua carta de 29 de julho. Só Deus sabe o prazer que ela me causou. É preciso estar no Brasil, digna Mãe, para apreciar seus conselhos e os cuidados de sua solicitude materna… Quando vi chegar o quarto mês sem receber nenhuma notícia, comecei a me inquietar, pensando que talvez a senhora estivesse exposta a uma perseguição aberta. Eu não ousava escrever-lhe como teria desejado, não sabendo onde minhas cartas cairiam. Por outro lado, aqui é preciso ser muito reservada nas cartas, pois muitas vezes elas se perdem ou são abertas. Mas a principal causa de meu silêncio é que eu não queria dizer essas coisas ao acaso. Quando recebi a primeira carta que a senhora teve a bondade de me enviar, não respondi porque tinha chegado havia poucos dias e estava ocupada em enviar uma ao correio. Hoje, boa Mãe, venho apressadamente abrir-lhe meu coração; digo apressadamente, porque o correio parte amanhã, e só tenho um momento para lhe dizer muitas coisas; falarei, portanto, com toda simplicidade.
Sua carta me deu um prazer tanto maior quanto, no momento em que a recebi, minha pobre alma tinha, por assim dizer, necessidade de algo que a reanimasse um pouco. Nem sempre há consolações no Brasil… aqui as tentações são muito mais fortes do que na Europa, mas a graça é proporcionada às necessidades. Uma coisa singular é que, desde que pus os pés em terra no Rio e durante os doze dias que ali permanecemos, durante esse tempo, digo que tínhamos todos os dias a felicidade de nos alimentar do pão dos anjos, de assistir a várias Missas, de estar em uma santa casa rodeadas de Senhoras cheias de fervor; pois bem, boa Mãe, acreditaria a senhora que talvez não tenha havido tentações que não tenham vindo me atormentar? E durante a travessia do Rio a Santos, eu estava tão perturbada que me parecia que teria ficado contente em ver o navio perecer e ser sepultada nas águas. Às vezes eu era tentada pelo desespero, outras vezes pela presunção. Minha única consolação era dizer: “Meu Deus, apesar de tudo, quero ser fiel.” Entretanto, no dia seguinte à nossa chegada a Santos, a grande tempestade se acalmou, e desde então até Itu, não tive mais violentas tentações; mas Nosso Senhor me poupou amplamente desses sofrimentos do coração de toda espécie (que seria longo demais enumerar) que fazem sofrer a pobre natureza, mas que fazem tanto bem à alma. Sem isso, é impossível ser boa missionária.”

