Terceira carta de Madre Teodora à superiora (quarta parte)
Na quarta parte da carta escrita em outubro de 1859, impressiona o posicionamento da Irmã Maria Teodora em relação à opinião do bispo acerca de sua competência para servir como superiora. Ainda não confirmada no cargo, escreve como aquela que foi nomeada pela sua superiora geral, mas aguardando a confirmação local. Reflete à intolerância do bispo de maneira serena, mas astuta, inclusive demostrando o quanto percebeu das razões humanas nas reações de Dom Antonio Joaquim de Melo. Registra personagens pouco conhecidos, como o secretário do bispo, Padre Charles Terrier, que viera de Chambéry com as primeiras religiosas de São José e tornou-se jesuíta, na maturidade da vida; outro, o Frei Eugênio de Rumilly, é figura central em toda a trama dos primeiros tempos do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio e do posicionamento do bispo em relação às religiosas.
“Quando me pergunta sobre o hospital, eu lhe responderia, boa Mãe, que, por ora, não se trata de nada; contudo, creio que está em projeto. Permita-me dizer-lhe que nunca se envie Irmãs sem que sejam oficialmente solicitadas pelo Bispo. Minha chegada o havia contrariado tanto que ele disse abertamente que não queria receber Irmãs que não havia pedido. Julgando que o P. Eugênio havia feito isso por iniciativa própria, ele não queria mais deixá-lo como superior. E, boa Mãe, nós não temos senão a ele para nos sustentar. O bispo chegou a dizer que, visto que fazíamos coisas assim sem lhe falar, não queria mais se ocupar de nós. O P. Eugênio ficou tão aflito que adoeceu. Entretanto, as coisas se arranjaram e o bispo mudou tanto de sentimentos que me recebeu com uma bondade toda paternal; ele próprio veio me ver e, antes de partir para retomar suas visitas, temendo que eu estivesse aflita com os arranjos que haviam sido feitos e dos quais a senhora deve estar a par agora, enviou-me o Sr. Terrier para me consolar, não podendo fazê-lo ele mesmo porque eu não compreendia suficientemente o português. Tudo isso, confusa com tamanha bondade, pedi ao abade que lhe fizesse chegar meus sinceros agradecimentos e que lhe dissesse que, em vez de estar aflita com o que ele havia feito, eu estava muito contente, e que pedia apenas muito humildemente à Sua Grandeza que não pensasse mais em outras mudanças.
Creio que a senhora deve ter recebido o montante de todas as despesas que fez por nós; o bispo havia tomado emprestado antes de sua partida para reembolsar tudo. Veja, boa Mãe, como o Bom Deus move os corações dos homens à sua vontade; Ele lhes faz amar aquilo de que nem queriam sequer ouvir falar. Entretanto, creio que, em outra ocasião, seria preciso agir com mais doçura; para fazer apreciar as Irmãs, é preciso fazê-las desejar.”
Irmã Luiza Rodrigues I.S.J.
Luís Roberto de Francisco

