Terceira carta de Madre Teodora à superiora (terceira parte)
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Nesta terceira parte da carta escrita em outubro de 1859, a Irmã Maria Teodora registra elementos novos e interessantes à história da educação no Brasil e as diferenças em relação à França, como a questão da inspetoria. De outra parte, revela preciosas informações sobre o contexto que encontrou em Itu. A história do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, que durou mais de um século em Itu, é marcada por poucas informações publicadas, ressentindo de pesquisa mais acurada, por exemplo, sobre o ambiente e o potencial das estudantes: notável instrução para trabalhos manuais, dificuldade com os conteúdos intelectuais. Além do mais, a missiva dá conta de uma curiosidade sobre o aprendizado da língua portuguesa por parte das religiosas, a necessidade de traduzir textos para aplicar às alunas e a formação religiosa que acompanha a formação de um colégio confessional como esse.

“Outra coisa que não é muito cômoda é que aqui estaremos, ao que parece, não somente submetidas às inspeções, mas o inspetor vem fazer os exames no fim do ano; além disso, estamos sob a jurisdição da mestra de escola paga pelo governo, que tem inspeção sobre todas as escolas, colégios etc. do distrito. A senhora vê, boa Mãe, que as contradições abundam no Brasil, assim como em Chambéry. Ainda somos felizes se não nos obrigarem a prestar exames. Creio que os alunos mais capazes ficariam aqui muito embaraçados. As pessoas não são tão atrasadas quanto se pensava: primeiro, quanto ao trabalho manual, sobretudo para as coisas de gosto, muitas vezes não se encontraria melhor na Europa. A rede, os bordados, a tapeçaria, as flores artificiais, o bordado antigo são coisas que todo mundo sabe fazer.
Mas não acontece o mesmo com os conhecimentos sólidos, e sobretudo com a Religião; geme-se ao ver como Deus é desconhecido e esquecido, mesmo na cidade mais religiosa do Brasil. As coisas mais essenciais são completamente ignoradas; as crianças são, no entanto, muito inteligentes; nossas pensionistas aprenderam, em menos de quatro meses, todo o pequeno catecismo de Chambéry que traduzimos para o português. Creio que em breve teremos a felicidade de fazer realizar uma primeira Comunhão.
Uma pessoa que não é suficientemente instruída, sobretudo que não conhece bem a gramática francesa, tem grande dificuldade em aprender o português. O que causa muito sofrimento não é tanto a tradução do português para o francês — isso ainda se faz facilmente — mas a tradução do francês para o português; a construção das frases é tão diferente que se tem muita dificuldade em sair-se bem. E, no entanto, até agora, nossas Irmãs foram obrigadas a traduzir todas as suas lições. A pronúncia não é menos difícil; se não se coloca a quantidade na sílaba como deve ser, às vezes dizem-se impropriedades.”