Primeira carta de Madre Teodora à superiora (parte 3)

Nesta terceira parte da primeira carta, uma importante revelação da Venerável Maria Teodora Voiron à superiora é ter oferecido a Deus a própria vida pela salvação da embarcação, durante a difícil viagem para chegar ao Rio de Janeiro.
Além de escrever sobre as provisões que trouxe, deixa transparecer o ambiente de pouca religiosidade que encontraram no Rio de Janeiro e o quanto trabalho teriam pela frente.
Como Nosso Senhor é bom! Ele já me recompensou cem vezes pelos pequenos sacrifícios que fiz por Ele. Foi somente perto do Cabo Frio que a tristeza, direi, quase o medo, se apoderaram de minha alma. O tempo horrível que tínhamos fazia-me crer que a vontade de Deus era que eu não fosse mais longe. Roguei ao nosso Divino Salvador que me fizesse morrer e poupasse o navio e toda a tripulação. Aquele que disse: “Pedi e recebereis” não foi surdo às minhas orações. Após uma noite terrível que eu acreditava ser a última, o bom tempo voltou, e no dia seguinte entramos na baía, todos com boa saúde. A felicidade de ver a terra nos fez esquecer, por um instante, todas as nossas misérias passadas.
Embora tivéssemos tudo conforme o desejado em nosso navio, as pequenas provisões que a senhora teve a bondade de nos oferecer, deram grande prazer, sobretudo enquanto estávamos mais enjoadas; ficamos muito satisfeitas por ter certas coisas que não se encontravam no “Petrópolis”. O chocolate, entre outras coisas, me foi muito útil para meus dois pobres doentes que, de tanto vomitar, tinham o estômago muito debilitado. Nada se estragou (a não ser uma garrafa de xarope de groselha); as ameixas, nós as temos quase todas ainda, graças ao Sr. Capitão que nos fazia comer das dele, dizendo que, quando estivéssemos em Itu, ficaríamos contentes por ter conservado nossas pequenas provisões. As castanhas, os massapães: tudo se conservou intacto. Tenho razão em lhe dizer, boa Mãe, que somos filhos mimados da Divina Providência. Nossas obras completas, pérolas, sedas, etc., tudo está em bom estado; mas isso é assunto da alfândega do Rio!
Boa Mãe, que país! O que quer que se diga, não se chega perto da verdade. Que missão! Como precisamos do espírito do Salvador e do auxílio de vossas santas orações! Encontram-se, no entanto, algumas dessas almas de elite, de uma virtude à prova de tudo; infelizmente, são muito raras. Foi uma dessas pessoas, o Sr. Diogo Andrew, que veio nos buscar a bordo do Petrópolis e nos conduziu à Santa Casa de Misericórdia, onde a Superiora nos esperava, segundo uma carta do Sr. Abade Goud; ela acreditava que éramos em grande número e ficou muito surpresa ao ver que éramos apenas duas. É impossível descrever a caridade dessa boa Superiora e de todas as suas Irmãs. Elas nos tratam absolutamente como se fôssemos das suas; os cuidados de saúde mais minuciosos nos são dispensados com uma bondade admirável.
Reservo esses detalhes para outra ocasião, pois, boa Mãe, quero lhe contar tudo.




