Uma pequena notável
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O diminutivo “Glorinha” era pelo tamanho e pelo carinho. À presença forte e talentosa ninguém ficava indiferente, cantora admirável, que aprendia na primeira leitura e servia de esteio ao naipe de contraltos, presença de que desfrutamos da alegria de viver, e nos deixou no dia 8 de maio, quando o Vozes de Itu celebrava mais um ano de vida e atividade.
Nesse Coral, em que fui regente por trinta anos, convivi com a Glorinha, assídua aos ensaios, sem atrasos, oferecendo extraordinário suporte às apresentações.
Conheci-a quando ela lecionava com minha mãe. Reencontrei-a no Vozes de Itu, anos depois, cercada da família, o Geraldo, as meninas, Angela e Ana que participavam vez por outra, e o Sérgio, que passou toda a vida ao lado da carinhosa mãe.
Glória estudou na Escola Normal, no Regente Feijó, aluna de música do Prof. Luizito. Quando celebramos o centenário de nascimento dele, ela escreveu este belo depoimento: “A música sempre foi minha verdadeira paixão. Acho que, quando nasci, não chorei, nasci cantando! Essa paixão teve seu ápice quando ingressei no Canto Orfeônico do Regente Feijó, regido pelo Prof. Luizito. Aprendemos com ele as notas musicais usando os dedos da mão direita e cantávamos pequenas canções infantis, aplicando com gestos o que havíamos aprendido. A ordem e o capricho eram suas principais virtudes. As lições nos cadernos pautados, eram rigorosamente julgadas por ele. Jamais esquecerei o dia de nossa formatura no magistério. Fui indicada por ele para declamar a Canção da Despedida. Quando estava chegando ao final a emoção tomou conta de mim e não consegui conter as lágrimas. Ele me cumprimentou dizendo: a emoção neste momento é produto daquilo que somos e sentimos!”
A talentosa professora fez da música uma parte importante da sua vida, na sala de aula, no Coral e em casa, onde entoava melodias o dia todo. Mesmo idosa, com falhas de memória, não perdia a alegria de cantar.
A discreta participante do grupo, certa vez, assombrou o público, na performance que chamamos “Show de calouros”, organizada para reviver o tempo dos programas de auditório das rádios das décadas de 1940 e 1950. Enquanto alguns cantores atuavam como calouros, e o coro e pequena orquestra davam suporte à performance, três cantores faziam-se de jurados, entre eles Glorinha, inspirada em Angela Maria; subiu ao palco, tomou a atenção da plateia e impressionou cantando notas agudas e com tal força que eu nunca tinha ouvido daquela pequena notável.
A sua companhia e cumplicidade constantes, sem questionar repertório, sem reclamar de nada, deram força ao que fizemos e enfrentamos juntos, com humor fino, até em momentos de tensão, amenizando conflitos.
Às vezes aparecia com um divertidíssimo jornal de notícias internas; em horas de leitura e interpretação complicadas, Glorinha tinha a graça de construir paródia sobre textos difíceis, em alemão ou russo, deixando o ambiente leve e engraçado.
No próximo domingo, na missa das 8h, no Bom Jesus, vamos rezar e cantar pela nossa Glória Terezinha Rodrigues de Carvalho, batalhadora afro-ituana, tesouro musical que brilhou entre nós.