Uma Igreja que existe para anunciar: voltar ao essencial

Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo Metropolitano de Santa Maria (RS)
Presidente da Comissão Episcopal para a Animação
Bíblico-Catequética da CNBB
Há momentos na vida da Igreja em que é preciso parar e perguntar: afinal, para que existimos? Não para manter estruturas, nem apenas para organizar atividades, mas para algo muito mais profundo e decisivo: anunciar Jesus Cristo.
As novas Diretrizes recordam isso logo no início: a missão recebida de Jesus é clara — “Proclamai o Evangelho” (Mc 16,15). Não é uma opção entre tantas. É a identidade da Igreja. Tudo o que somos e fazemos precisa nascer dessa fonte. Quando isso se perde, a pastoral se torna pesada, repetitiva e sem força transformadora.
Mas há um detalhe importante que o texto nos ajuda a perceber: evangelizar não é apenas falar de Deus; é testemunhar a misericórdia que recebemos. Antes de anunciar, a Igreja experimenta. Antes de ensinar, ela acolhe. Isso muda tudo. O anúncio deixa de ser teoria e passa a ser vida compartilhada.
Outro ponto decisivo é este: Jesus Cristo não é apenas o conteúdo da evangelização — Ele é o próprio Evangelho. Isso significa que evangelizar não é transmitir uma mensagem distante, mas tornar presente uma pessoa viva. Jesus continua a caminhar, a falar, a curar, a acolher — agora por meio da Igreja.
E como Ele evangeliza? As Diretrizes são muito concretas: com palavras e gestos. Ele anuncia o Reino, mas também se aproxima, serve, toca as feridas, busca quem está perdido. Não exclui ninguém. Vai ao encontro de todos. Esse estilo não é secundário — é o próprio caminho da Igreja hoje.
Por isso, as Diretrizes insistem: não basta repetir métodos antigos. Estamos diante de uma mudança de época. O mundo mudou, as perguntas mudaram, e a forma de anunciar também precisa ser renovada, sem perder o essencial: o centro continua sendo Jesus.
Há ainda um chamado forte à conversão — não apenas pessoal, mas também das relações, dos processos e dos vínculos. Em outras palavras, não basta querer evangelizar; é preciso mudar o modo de ser Igreja, tornando-a mais aberta, mais acolhedora, mais próxima e mais sinodal.
A imagem da “tenda” ajuda a compreender isso: uma Igreja que não se fecha, mas se alarga; que escuta mais; que acolhe melhor; que permanece firme na fé, mas com as portas abertas para todos.
No fundo, a Introdução das Diretrizes nos coloca diante de uma pergunta simples e exigente: estamos realmente anunciando Jesus ou apenas mantendo a Igreja funcionando?
Se voltarmos ao essencial, tudo se reorganiza. A fé ganha vida, as comunidades se tornam mais missionárias e a Igreja volta a ser aquilo que sempre foi chamada a ser: sinal vivo do amor de Deus no mundo.




