A esperança: é possível?

Dom Pedro Cipollini
Bispo de Santo André (SP)
Nossa realidade é maravilhosa do ponto de vista tecnológico, mas dramática sob o aspecto das relações humanas. Aumentam a violência, especialmente no trânsito, o feminicídio, a corrupção, a pobreza e a fome, em meio a guerras que parecem não ter fim. Impõe-se, portanto, uma reflexão sobre a esperança. É ainda é possível?
Existe um mito da Grécia Antiga que se transformou em expressão e metáfora da cultura popular: a Caixa de Pandora. Pandora, a primeira mulher mortal a surgir na Terra, ao abrir a caixa, desencadeia todo tipo de desgraça que dela se espalha pelo mundo. No entanto, poucos se recordam da parte final da narrativa. Junto com as desgraças, um pequeno dom parece resistir ao caos que se instala. É o último a permanecer na caixa e, embora pareça frágil, é a esperança.
O mito demonstra que a esperança é capaz de reverter os males que se espalharam com a abertura da Caixa de Pandora. Não por acaso, a sabedoria popular conserva ditados como: “Onde há vida, há esperança” e “A esperança é a última que morre”.
É a esperança que sustenta, protege e preserva a vida, fazendo-a crescer. Foi ela que impulsionou a evolução da história humana sobre a Terra. A esperança é algo divino presente no coração humano. Santa Teresa de Calcutá, que viveu entre os mais pobres transmitindo-lhes esperança, escreveu: “O dia mais bonito? Hoje. O maior obstáculo? O medo. A coisa mais fácil? Enganar-se. O maior erro? Renunciar…”. Somente alguém movido por uma esperança inabalável poderia ter escrito tais palavras.
O escritor francês Charles Péguy afirma que Deus não se surpreende com a fé dos seres humanos, pois responde à evidência do que resplandece na criação. Tampouco se surpreende com a caridade, porque o ser humano tem sede de amar e busca o amor. O que verdadeiramente comove o coração de Deus é a esperança. Ele compara a fé a uma esposa fiel e a caridade das uma mães. A esperança, porém, é uma menina que conduz ambas pelas mãos. Essa menina atravessa um mundo marcado por conflitos, guerras e desastres, guiando a fé e a caridade. Ela segue adiante porque vê o futuro, aquilo que ainda virá. E sabe que, ao final da história, triunfará a bondade: Deus vencerá com sua misericórdia.
Assim, a esperança cristã é uma virtude ao mesmo tempo humilde e forte. Ela sustenta a pessoa humana e impede que se afogue nas dificuldades da existência. É força para resistir ao presente com coragem e capacidade de olhar para o futuro sem medo. O apóstolo Pedro escreve que devemos estar sempre prontos a apresentar as razões da nossa esperança (cf. 1Pd 3,15). Em meio ao desespero que parece caracterizar nossa época, na qual a ética do instante elimina a perspectiva do futuro, torna-se necessário anunciar a esperança que Jesus transmitiu aos seus seguidores. São Paulo recorda que a vocação do cristão é manter viva a esperança no mundo: “Fomos chamados à esperança” (cf. Ef 4,4).
Somente quem tem esperança pode acender as duas lâmpadas que iluminam o mundo: a lâmpada da piedade, que nos permite ver Deus e o próximo com misericórdia, e a lâmpada da justiça, que nos impulsiona a trabalhar pelo bem comum. Por isso, o poeta Fernando Pessoa escreveu: “Do alto da torre da igreja vê-se o campo todo em roda. Só do alto da esperança vemos nós a vida toda”.

