De volta a Itu, maestro e memorialista

O retorno de Tristão Mariano da Costa e sua família a Itu, em 1903, colaborou para a reorganização da música sacra local. No tempo da sua ausência, de 1897 a 1902, outros músicos foram responsáveis por tocar e cantar, mas sem a qualidade dos Lobo-Costa. Em 1892, com a morte do Padre Miguel Correa Pacheco e do compositor José Mariano da Costa Lobo, a única liderança nessa área era a de Tristão. Enfraqueceu-se muito o ambiente artístico nas mãos de José Victório de Quadros, João Pedro Correia e Augusto Cesar de Barros Cruz, que eram instrumentistas somente. Portanto, ao retornar a Itu, Tristão retomou orquestra e coro, com quarenta componentes, para as celebrações festivas da nossa Matriz.
É verdade que o repertório mudou um pouco, Tristão trouxe de Piracicaba as missas que escreveu e passou a executá-las aqui. Mas vemos, em seu arquivo, também, obras de compositores italianos com cópias desses primeiros anos do século XX, por exemplo, a Missa de Requiem de Perosi, compositor da Capela Sistina. Parece que Tristão não compôs nada novo nesse tempo.
Ele restabeleceu também o externato e voltou a lecionar no Colégio São Luís. Estava com 57 anos e muita energia para lecionar música a garotos e jovens, para levar adiante a sua escola, transferindo-a, aos poucos, à filha, Clara Augusta, que foi assumindo a condução do educandário.
Em 1903, Tristão escreveu uma memória longa sobre a fundação do Colégio São Luís. Esse texto foi citado pelo Padre Fernando Pedreira de Castro na biografia do Padre José de Campos Lara e consultado por Francisco Nardy Filho, mas não havia notícia de seu paradeiro.
Após mais de vinte anos percorrendo arquivos da Companhia de Jesus, em 2016, em visita ao arquivo do Colégio São Luís, ainda na Rua Haddock Lobo, 400, entre outras anotações sobre a história do colégio, encontrei uma transcrição de três cadernos de notas deixadas por Tristão Mariano. Estas foram publicadas pelo Museu da Música, em 2017, no sesquicentenário do colégio. Trata-se de um documento precioso que, se em parte é inspirado em anotações dos jesuítas, de outra parte traz memórias do professor, sua convivência no colégio, as lembranças da infância e do que ouviu dos antigos sobre a educação em Itu antes dos jesuítas, os percalços para a abertura do “São Luís”, a sua efetivação e primeiros anos de funcionamento. Trata também do antigo clero ituano, algumas biografias e os embates políticos com os anticlericais.
Na “Breve Notícia Histórica do Colégio São Luís”, o escritor faz um relato longo e digressivo, revela-se um preocupado pesquisador ao cruzar informações das poucas fontes de que dispunha. Um pequeno trecho sobre avanços de tecnologia sobre energia elétrica e aparelhagem de comunicação do colégio mostram um professor curioso, atento às mudanças de seu tempo, talvez uma maneira de pensar da própria geração, encantada com novidades que tanto mudariam a vida. Essa matéria revela a forte ligação do escritor com o jesuítas.
Luís Roberto de Francisco
Biblioteca Histórica
do Bom Jesus




