Tristão, escritor em Piracicaba

Ao longo de quase dois anos, de fevereiro de 1900 a setembro de 1901, Tristão Mariano da Costa escreveu na Gazeta de Piracicaba, dando continuidade ao papel de articulista, como fora vinte anos antes no Almanaque Literário de São Paulo. Porém, o escritor era outro, não mais o biógrafo e memorialista, mas um esteta e articulista de ideais políticos, morais e religiosos que, a princípio, estariam em contradição, em se tratando dos conflitos entre Catolicismo Ultramontano, Positivismo e Liberalismo professados por grupos diferentes dentre os que circulava o professor-maestro-político.
Os sessenta e quatro artigos publicados, geralmente na primeira página do semanário, revelam prestígio social do compositor. Se era bastante festejado enquanto músico, regente, com frequentes notícias sobre a sua atuação junto aos grupos artísticos da cidade, com outras lideranças musicais, ou sobre a sua escola, exames e concertos, Tristão também integrava a elite cultural ao assumir uma coluna semanal no periódico, inicialmente intitulada Artes.
O escritor circulou por temas de seu interesse e conhecimento, sobre pequenas questões de teologia, educação e cidadania. Às vezes parecia estar respondendo a situações do cotidiano ou veiculadas pelos jornais; posicionou-se diante de temas da filosofia e da moral, tomando partido muito claro de um ponto de vista cristão e católico romano no momento em que outros credos e outras formas de pensar ingressavam no ambiente de pensamento hegemônico católico ou do Liberalismo, que estiveram em conflito durante o final do século XIX. O pensamento laico que alguns republicanos da primeira hora propunham, por uma nação menos influenciada pela religião ou pela superstição, por um povo alfabetizado e escolarizado para servir à pátria, coadunava-se ao Cristianismo em sua visão de mundo. Porém, na hierarquia de valores, a religião prevalecia.
Na série sobre axiomas sociais, tratando da Liberdade, o autor discute conceitos diferentes sobre ela, posicionando-se logo no início: “Palavra sacrossanta que nos adoça os lábios ao pronunciá-la; pensamento irresistível que nos escalda o coração e a mente; aspiração inata que os próprios irracionais manifestam… Mas também não há palavra, debaixo de cujo manto, não se tenha tanto abusado e desvirtuado a pretexto dela. (…)
Liberdade de pensamento, liberdade da palavra, liberdade de ação, liberdade da imprensa, liberdade de cultos, etc., eis o que continuamente ouvimos e lemos. Mas livre-nos Deus desses modernos e antigos liberais, porque em regra são eles os maiores tiranos e inimigos da nossa verdadeira e bem entendida liberdade, isto é, a liberdade conforme a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo.” Tristão Mariano mostra-se empenhado em influenciar parcela da sociedade através de conteúdos que tangem a Filosofia e a Teologia em um jornal que proclamava “órgão republicano”. Esta é uma das múltiplas faces da organização do pensamento no período do qual ele faz parte e, desta forma escreve sobre “igualdade”, “soberania popular”, “duelo” e “suicídio”.
O autor foi muito feliz ao escrever sobre escolas musicais europeias, proporcionando aos leitores a oportunidade de acompanharem o seu notável conhecimento sobre questões técnicas e estéticas.
Luís Roberto de Francisco
Biblioteca Histórica
do Bom Jesus

