As três matrizes à Candelária na história de Itu

por Luís Roberto de Francisco
Há exatos cem anos o jornal A Federação publicava a série de artigos de Francisco Nardy Filho (1879 – 1959) que deu origem ao primeiro volume de sua obra “A Cidade de Itu”, editada em 1928. Empenhado em “desvendar” os momentos iniciais da história local, Nardy foi o primeiro a registrar o nascimento da cidade através da construção de uma capela, por Domingos Fernandes, em 1610. Vejam o artigo “de capela a Parochia”, publicado em 25 de fevereiro de 1922, transcrito em fac simile nesta edição comemorativa.

É possível se conhecer a história da Paróquia central da cidade e das três igrejas que lhe serviram de matrizes através das notas do segundo Livro de Tombo da Igreja Matriz de Nossa Senhora Candelária (Cúria Diocesana de Jundiaí) que serviu a estudiosos como Nardy Filho e Monsenhor Paulo Florêncio da Silveira Camargo (1896 – 1972).
A constituição da Paróquia de Nossa Senhora Candelária no Outu-Guaçu é de 1654, conforme estudos do Mons. Camargo, divulgado no livreto “350 anos de Itu”, escrito em 1960 e novamente publicado pela Acadil neste aniversário de Itu.
Naquele tempo só existia uma ermida aqui justamente a capela construída por Domingos Fernandes que foi aumentada e reformada pelo seu neto e curador do templo. A construção ficava no espaço fronteiro à atual Igreja do Bom Jesus e foi demolida no século XVIII. Essa foi a primeira matriz de Itu da qual quase nada sabemos ou temos, nem mesmo a imagem original da padroeira, certamente de terracota.
A segunda matriz da cidade acompanhou o tímido crescimento da vila de Itu e foi erguida, em 1669 no meio da atual Praça Padre Miguel, mais ou menos onde está o coreto. Ficava na mesma posição da igreja do Bom Jesus. Era um templo um pouco maior e com altares laterais; imagens de santos, veneradas aí, ainda se encontram distribuídas por outras igrejas da cidade, incluindo a própria matriz. A escultura de Nossa Senhora Candelária venerada nesse templo é a que está na igreja do Bom Jesus; de madeira policromada e belo acabamento decorativo. Certamente portuguesa.
Cem anos depois da inauguração da segunda matriz, alguns ituanos escreveram ao bispo de São Paulo solicitando a demolição da velha igreja e construção de nova, em um dos cantos do Largo, para que se espraiasse um espaço maior diante dela. O documento a este respeito, datado de 1771, eu encontrei no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo e o transcrevi.
Recebida a autorização ergueu-se a atual igreja, inaugurada em 1780. Há belas tradições narradas sobre a participação da comunidade na construção, uma delas o transporte das telhas de uma olaria local para cobrir a construção.

A nossa matriz é considerada o maior monumento do estilo barroco no Estado de São Paulo, pois houve grande empenho em sua decoração, desde a pintura do forro da capela mor, justamente a narrativa da apresentação do Menino Jesus no templo e a Purificação de Maria. A pintura, de autoria de José Patrício da Silva Manso (1753 – 1801) bem como a decoração das paredes laterais, com destaque para as telas do padre Jesuíno do Monte Carmelo (1764 – 1819) tratam da história de Maria e de Jesus.
No nicho principal do altar mor está a imagem da padroeira, em madeira policromada esculpida pelo mesmo autor das imagens da Senhora do Rosário e São Miguel, nos altares laterais ao arco cruzeiro, devoções das principais irmandades daquele tempo.
Os altares da nave, também decorados com esmero, foram erguidos para louvor das outras invocações das irmandades locais.
As três matrizes da paróquia de Nossa Senhora Candelária têm sido os principais lugares da vida cultural e social da história de Itu. Em seu espaço foram batizados, uniram-se em matrimônio e sepultados muitos ituanos cujos nomes são lembrados pela história. Outros, anônimos e empobrecidos, trabalharam para erguer as suas paredes de taipa. Mas, indistintamente, nossa matriz é que abrigou os seus louvores de fé; nela se ouviu a melhor música sacra da região; viram-se paramentos e belas alfaias que serviram a ritos de louvor, rogações, réquiem e agradecimento.
As três matrizes ituanas representam o mais importante repositário da fé católica ituana.




