Quarta carta de Madre Teodora à superiora (primeira parte)
Importante documento histórico, a primeira parte da quarta carta enviada por Madre Teodora à França, já empossada superiora da comunidade das Irmãs em Itu, traz a sua interpretação da reação de Dom Antonio Joaquim de Melo ao impedir que uma jovem religiosa se tornasse superiora.
“Itu, 28 de dezembro de 1859
Boa e sempre mais querida Mãe,
Já há mais de quinze dias que eu me propunha a lhe escrever sem ainda ter podido fazê-lo. As numerosas ocupações surgidas por ocasião de nossa mudança de casa não me deixaram um instante de lazer. Hoje que começo a respirar, apresso-me em responder à sua boa carta de 21 de outubro. Se experimentei um prazer bem sensível ao recebê-la, ele foi um pouco perturbado pela pena que senti ao ver quanto a senhora ficou aflita com os arranjos momentâneos de nossos superiores daqui. Eu teria desejado, muito querida Mãe, ser por um instante andorinha, a fim de voar até junto da senhora para lhe dizer as coisas tais como são e, assim, consolá-la um pouco, se isso fosse possível. Creio que a maior causa desses desgostos veio do fato de que a senhora foi mal informada. Procurarei fazer o melhor possível para colocá-la a par de tudo. Vou, boa Mãe, falar-lhe com toda simplicidade; agora mais do que nunca, meu maior desejo é abrir-lhe meu coração e depositar no vosso todas as minhas inquietações e minhas misérias.
Começarei, em primeiro lugar, por lhe dizer, o mais claramente possível, os motivos que moveram nossos superiores daqui em tudo o que foi feito. Em segundo lugar, colocarei a senhora a par dos últimos arranjos; em terceiro lugar, falarei do estado da casa em geral e, enfim, de tudo o que me concerne pessoalmente.
Direi, em primeiro lugar, que o bispo e o Frei Eugênio jamais tiveram a intenção de contrariar, de maneira alguma, aquilo que a senhora havia determinado; longe disso, aprovaram tudo. Somente, boa Mãe, pelas razões que explicarei a seguir, ordenaram à Irmã Justina que continuasse, até nova ordem, a governar a casa. Ela se submeteu por obediência e carregou durante cinco meses uma cruz que meus fracos ombros não teriam podido sustentar. Sua conduta, durante esse tempo, foi digna de elogios; e, desde que as coisas foram organizadas de outra maneira, ela está comigo como uma noviça: mesma submissão, obediência, simplicidade, como se jamais tivesse sido encarregada de nada na casa. Asseguro-lhe, minha boa Mãe, que isso é para mim uma grande consolação, que alivia muito o pesado fardo que pesa sobre meus ombros.
Agora, permita-me dizer-lhe, muito querida Mãe, os motivos que levaram nossos Superiores daqui a agir assim: no momento de minha chegada, as coisas estavam em tal estado que a menor mudança teria derrubado tudo. O pensionato se abria, mas ainda não havia alunas; os jornais estavam cheios de invectivas contra nós; tudo o que fazíamos era observado, censurado; o demônio fazia agir todos os meios imagináveis, no interior e no exterior, para derrubar a obra. Era o momento da crise.”

