Os Astrônomos do Clero
Vivemos tempos curiosos. Foguetes já sobem ao espaço e voltam para pousar “de ré”, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Fala-se novamente em levar seres humanos à Lua e, desta vez, permanecer por lá. Depois viria Marte. Diante desse cenário quase de ficção científica, talvez seja oportuno recordar algo que muita gente desconhece: homens da Igreja Católica estão olhando para o céu, com interesse científico, há séculos.
Um dos nomes importantes é o jesuíta Cristóvão Clávio, matemático e astrônomo do Colégio Romano. No século XVI participou da comissão ligada à reforma do calendário promovida pelo Papa Gregório XIII. O resultado foi o Calendário Gregoriano, promulgado em 1582 e utilizado até hoje em grande parte do mundo. Não era apenas uma questão religiosa. Para acertar festas e estações era preciso compreender, com precisão, os movimentos do céu.
No século seguinte aparece outro jesuíta, Giovanni Battista Riccioli. Em 1651 publicou o monumental Almagestum Novum e, juntamente com Francesco Maria Grimaldi, apresentou um mapa da Lua que influenciou profundamente a nomenclatura lunar. Muitos nomes de mares e crateras usados ainda hoje nasceram daquele trabalho. Ou seja: muito antes de alguém sonhar em caminhar sobre a Lua, padres já estavam ocupados em desenhá-la e estudá-la.
Outro personagem interessante foi Giuseppe Piazzi, sacerdote teatino, matemático e astrônomo. Diretor do Observatório de Palermo, descobriu, em 1º de janeiro de 1801, um pequeno corpo celeste entre Marte e Júpiter. Era Ceres, hoje classificado como planeta-anão. Não foi pouca coisa.
Mas talvez um dos mais impressionantes seja o Padre Angelo Secchi, jesuíta do século XIX. Ele estudou a luz das estrelas e classificou milhares delas de acordo com seus espectros. Seu trabalho ajudou a transformar a Astronomia: já não bastava saber onde estavam os astros; começava-se a perguntar do que eram feitos. Por isso Secchi é frequentemente lembrado como um dos pais da Astrofísica.
A lista, aliás, seria muito maior. Jesuítas trabalharam em observatórios da China, Viena, Roma e outros lugares; alguns observaram cometas, trânsitos planetários e estrelas duplas. A tradição científica do clero não cabe num único artigo.
E chegamos ao Padre Georges Lemaître, sacerdote belga, físico e matemático. Em 1927 apresentou um Universo em expansão e depois desenvolveu a ideia do “átomo primordial”, que ficaria associada ao que hoje conhecemos como Teoria do Big Bang. Ciência e sacerdócio conviviam nele sem qualquer crise de identidade.
Também não é por acaso que existe a Specola Vaticana, o Observatório Vaticano. Suas raízes remontam aos estudos do calendário no século XVI e, em 1891, o Papa Leão XIII refundou oficialmente a instituição. Atualmente seus pesquisadores continuam trabalhando em Astronomia e Astrofísica.
Portanto, quando ouvirmos falar em novas missões lunares, telescópios gigantes, viagens a Marte ou futuras colônias humanas fora da Terra, não precisamos imaginar que a Igreja esteja diante de um assunto completamente estranho.
Há séculos alguns de seus padres levantam os olhos, fazem cálculos, observam estrelas e tentam compreender o Universo.
Talvez porque estudar a criação também seja uma maneira de admirar o Criador.
Amém.




