Uma história construída no coro alto
Os cinquenta anos do falecimento do organista Roberto de Francisco motivam o estudo da sua atuação por três décadas, entre 1946 a 1976, frente ao Coro do Bom Jesus, justamente quando esse grupo viveu o auge da música sacra católica no Brasil.
O coro, do qual eu tenho a alegria de ser o regente hoje, foi muito representativo da música romana em uma época em que colhiam-se os frutos do que havia sido plantado pelo Padre Bartolomeu Taddei, oitenta anos antes. O Bom Jesus é um santuário nacional relacionado ao maior movimento leigo da Igreja Católica, o Apostolado da Oração, que já contava mais de dois milhões de membros no Brasil daquele tempo. Além das peregrinações, essa igreja mantinha uma rigorosa rotina de celebrações com repertório musical recheado pela música renascentista romana e da sua repercussão no romantismo italiano, chamado Movimento Ceciliano, do século XIX, com dois compositores jesuítas trabalhando para o grupo, José Ramon Zabala e Robert Godding. Assim formou-se uma paisagem sonora, patrimônio imaterial da fé católica nesse templo.
Roberto de Francisco foi o timoneiro do dia a dia do coro, conduzindo um grupo formado por suas irmãs, primas, esposa, amigas e amigos, com tal qualidade de execução que construiu um panorama sonoro, reforço ao ambiente de absoluta inspiração romana no Bom Jesus: se a fachada é um sinal externo da romanização, a sua decoração interior e o santuário anexo expressam a arquitetura inspirada na Roma dos papas. A música, vinda do alto do coro, na língua latina, trazia um repertório escrito para impressionar, cativar e solenizar, compondo um todo cultural ao contexto.
Roberto nasceu em 1924, filho e neto de músicos italianos. Enquanto seu pai, Luiz, violoncelista, motivou e organizou banda e orquestra, Roberto envolveu-se com um instrumento harmônico, que permitiu a sua discreta atuação no coro alto da igreja.
Do repertório organístico, ele colecionou obras de europeus, executadas durante as cerimônias, no estilo exigido pela Igreja segundo um documento de Pio X, de 1903.
Roberto estudou com uma antiga pianista ituana, Maria Isabel Pacheco Jordão, com vistas a tornar-se organista na Igreja. Aperfeiçoou a formação no Conservatório Carlos Gomes, em Campinas, para o harmônio, instrumento que contava diversos exemplares nas igrejas ituanas, a fim de dominar a registração deles e dos órgãos de tubos, como o exemplar francês, da Igreja Matriz, onde ele foi organista por muitos anos.
Mesmo com as mudanças na liturgia, pelo Concílio Vaticano II, o Coro do Bom Jesus adaptou e manteve o acervo musical que Roberto levou adiante até o seu falecimento, em 6 de agosto de 1976.
Esse capítulo da história da música, revelado agora em concerto, e mostra no Museu da Música, lembram a atuação desse organista em uma perspectiva maior, a do Coro do Bom Jesus, que completa 80 anos desde que se tornou misto, com a presença de cantores junto ao grupo feminino, justamente quando Roberto colocou energia, talento e voluntariado a serviço da música ituana.




