Sonho realizado!
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Minha bisavó paterna, Maria Spinardi, morreu na tarde de 30 de março de 1952, um domingo da Paixão. Imigrante italiana, morava à época em Campinas, para onde havia mudado algum tempo antes com seu marido Ferruccio Castelli e alguns filhos ainda solteiros. Vítima de uma trombose, há um ano havia perdido uma das pernas, o que a fez mergulhar numa profunda tristeza, até vir a falecer com apenas 65 anos de idade.
Em minhas longas e saudosas conversas com minha avó Emma, filha de Maria e Ferruccio, ela me contava: “Minha mãe morreu no domingo de Passos. Nós chegamos em casa, da procissão, e recebemos a notícia do falecimento dela. Deixamos Altair e Laudinei [os filhos] com a Irene [prima] que era mais velha, e viajamos para Campinas. A procissão de Passos não era como agora, no domingo de Ramos; era um domingo antes, o ‘domingo de Passos’. Já no domingo seguinte havia duas procissões de Ramos no Carmo: uma de manhã, durante a missa, e outra de tarde, em que saiam todas as imagens de Nosso Senhor dos altares da igreja. Era uma procissão muito bonita!”.
Era um tempo em que o Carmo estava fechado e eu só guardava na mente algumas imagens esparsas daquela igreja, dos anos que antecederam à sua restauração até hoje inacabada: missas, procissões de Nossa Senhora, quermesses no campo lateral ou na quadra do seminário… mas nenhuma lembrança desses altares ou das imagens a que minha avó se referia, à exceção da dos Passos, cuja procissão nesse período saía dos portões do seminário, hoje entrada do colégio Anglo, ou do vestíbulo da própria igreja, cercado por um tapume para impedir o acesso à nave, onde máquinas e ferramentas imperaram e impediram o culto dos fiéis por quase 10 anos…
Já meus pais falavam da lembrança que tinham da chamada “Segunda Procissão do Enterro”, que saía do Carmo tarde da noite na Sexta-Feira Santa, depois de recolhida a procissão da Matriz. Meu pai dizia que era “uma procissão longa, mas de passo mais rápido”, e que “entrava na igreja em silêncio, sem sermão”. Minha mãe lembrava-se de assistir à procissão na casa da tia Mariquinha, na rua dos Andradas, mas que nem a tia, nem a mãe, a deixavam ver direito o cortejo “por ser já muito tarde”.
Tudo isso, somado às histórias que os meus contavam de sua vivência no Carmo, criou em mim um imaginário de profundo afeto àquela igreja, tristemente fechada já há tantos anos. O catecismo, a Liga Católica e a Pequena Liga, os frades holandeses e seu sotaque característico, os piqueniques na fazenda Cruz Alta e os mergulhos no Tietê ou no “Tanque dos Padres”… A riqueza de detalhes com que falavam de tudo aquilo – e aqui incluo também meu avô Manoel, congregado mariano dos tempos de Frei Benigno e Frei Ambrósio – fez com que eu sentisse que de alguma forma havia vivido aquele tempo, aquele universo do Carmo que, mais tarde, Frei Clemente dizia ser o “pulmão religioso de Itu”.
Embora às vezes um pouco cético, dado às circunstâncias atuais do mundo e até às disposições do clero e dos frades carmelitas, hoje mais propensos a outros métodos de abordagem religiosa, jamais deixei de alimentar uma chama em meu peito, de ver ao menos algo daquela realidade que polvilhava meu imaginário acontecendo novamente e gerando frutos de salvação às pessoas.
Foi assim quando tive a oportunidade de presidir a Congregação Mariana do Carmo, nos anos de 1990; foi assim quando sócio da Liga Católica Jesus, Maria, José; e foi assim agora, após residir por mais de 10 anos longe de Itu, quando tive a oportunidade de recuperar essas duas procissões a que meus antepassados se referiam com saudade: a Procissão do Triunfo (ou de Ramos), e a Segunda Procissão do Enterro (ou do Senhor Morto), além da Procissão do Fogaréu (ou da Prisão), que em 2026 teve sua segunda edição após 130 anos sem ser realizada. Graças ao apoio dos atuais frades do convento ituano, com destaque para o Frei Antonio Bento, e a um grupo de membros da comunidade que abraçaram a empreitada, somadas às procissões do Depósito de Nossa Senhora das Dores e à de Passos, foram cinco procissões de Semana Santa no Carmo. Com mais duas promovidas pela Matriz da Candelária (do Senhor Morto e da Ressurreição), além de outras celebrações litúrgicas e paralitúrgicas, Itu projeta-se no cenário religioso como a cidade a contar quiçá com uma das mais tradicionais e piedosas semanas santas do Estado de São Paulo, oportunidades de acompanhar o Cristo em sua paixão, morte e ressurreição.
Destaque especial merece o resgate da Procissão do Triunfo, no domingo de Ramos de 2026.
Sete andores, levando as belíssimas e bicentenárias imagens da Paixão de Nosso Senhor, percorreram solenemente o centro histórico da cidade, carregados pela comunidade local e por integrantes de outras paróquias. Ao som das marchas da Banda Gomes Verdi, de Salto, dos sinos das igrejas do itinerário e de orações, os ituanos – em grande número – tiveram a oportunidade de reviver uma celebração extinta há 70 anos e que exaltou publicamente o triunfo alcançado por Cristo em sua paixão e morte de Cruz.
Como em um momento da procissão extravasou-me, ao pé do ouvido, o congregado mariano e amigo Robson Garcia, “essa procissão não poderia ter outro nome que não fosse ‘Triunfo’!”. De fato, uma apoteose… um sonho realizado!