A teologia da hospedaria: a gestão como alicerce da caridade

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Muitas vezes, quando pensamos no Dia Mundial do Enfermo, celebrado na quarta-feira, 11 de fevereiro, a imagem que nos vem à mente é a do médico à beira do leito ou a do religioso em oração na capela. São imagens sagradas. Mas, hoje, gostaria de propor um olhar para os bastidores dessa cena: para as planilhas, os processos, a logística e a administração. Sim, existe uma teologia escondida na gestão hospitalar.
Vivemos um tempo novo. As palavras do Papa Leão XIV, em sua mensagem para este dia, nos provocam profundamente ao resgatar a figura do “estalajadeiro” (o dono da hospedaria). O Santo Padre nos lembra que o Bom Samaritano não agiu sozinho; ele precisou de uma estrutura, de um lugar seguro, de alguém que garantisse a continuidade do cuidado.
O Papa nos alerta contra a “cultura da pressa” e do improviso. Eu ousaria complementar, à luz da minha experiência: o amor precisa ser organizado para chegar a quem precisa. A “hospedaria” citada no Evangelho precisa estar limpa, abastecida e funcionando.
Neste primeiro ano sem a presença física do Papa Francisco, recordamos o quanto ele insistiu no combate à “cultura do descarte”. Leão XIV agora avança e nos fala da “missão partilhada”. Ele afirma que o cuidado acontece em um “nós mais forte do que a soma de pequenas individualidades”. É aqui que entra a missão vital da boa gestão.
À frente do Instituto de Cooperação para o Desenvolvimento da Saúde (ICDS), testemunho que essa “hospedaria” moderna exige competência. Quando trazemos essa visão para a saúde, entendemos que salvar uma vida não depende apenas do cirurgião brilhante, mas de uma cadeia imensa de “estalajadeiros” que garantem que o medicamento esteja na prateleira, que o equipamento esteja calibrado e que a luz não falhe.
A missão do ICDS é dar corpo a esse apelo de Leão XIV. O Papa cita, em sua mensagem, que a doença “põe à prova a justiça de cada um”. Afirmo que a gestão é a ferramenta que torna essa justiça possível. Não adianta termos compaixão se não tivermos competência para manter as portas abertas. O desperdício de recursos na saúde não é apenas um erro administrativo; é um erro moral, pois retira a oportunidade de cura de quem mais precisa.
A visão teológica que proponho é a da “diaconia da eficiência”. O gestor de saúde, ao otimizar processos, combate a “cultura da pressa” que o Papa tanto critica. Se a gestão funciona, o médico tem tempo para ouvir o paciente. Se a gestão funciona, o enfermeiro tem recursos para “carregar a dor do outro”.
Rezemos pelos enfermos. Mas rezemos também para que nossas instituições de saúde sejam verdadeiras “hospedarias do Bom Samaritano”: geridas com transparência, ética e humanidade. Que o ICDS continue sendo esse braço operoso da Providência Divina. Pois, no fim das contas, organizar bem a saúde é uma das formas mais concretas de dizer ao irmão doente: “Aqui, você tem um lugar seguro”.




