Desafios do presente!
Cardeal Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre (RS)
A aceleração da comunicação e o ambiente hostil das redes sociais, provocado por alguns atores, têm sufocado o debate público. Nesse ambiente, não se trocam argumentos; em seu lugar, o que se vê são insultos e conteúdos distorcidos. O desrespeito a quem diverge vai abrindo espaço para a desconfiança institucional e a violência. Esse processo impacta diretamente a sociedade e compromete a formação democrática da opinião pública, ao dificultar a construção de um conhecimento coletivo fundamentado no diálogo, na pluralidade de perspectivas e no acesso à informação contextualizada.
O que é a violência? A violência é uma linguagem privada de relações, um grito privado de escuta que instaura um clima de radicalismo, um fechamento do coração e uma mistura de fatalismo, ou seja, a ideia de que o mundo está mal, a sociedade não presta e é preciso desconfiar de tudo e de todos, em uma lógica visceral de amigo-inimigo, eles-nós.
J. F. Kennedy dizia que, quando faltam as reformas pacíficas, acaba-se recorrendo às revoluções violentas. É o que se vê nas redes sociais. A circulação de conteúdos enganosos e o modo como podem ser produzidos e rapidamente compartilhados contribuem para promover a desconfiança nas instituições, aprofundar conflitos e dificultar a construção de consensos, alimentando suspeitas, não raramente, por meio de acusações infundadas e não comprovadas. Quando informações distorcidas e interpretações parciais ou preconceituosas sobre pessoas ou instituições são propositadamente disseminadas, os processos de decisão comunitária entram em crise.
É preocupante constatar a dificuldade de conviver com a diferença, o que contribui para o surgimento de fanatismos e fundamentalismos incapazes de favorecer a construção de consensos em vista do bem comum. Governos recebem mandatos; a cidadania conserva a responsabilidade de participar, fiscalizar e reivindicar. Mas essa responsabilidade precisa de condições concretas: informação confiável, espaços acessíveis de deliberação, segurança para os defensores de direitos e canais públicos que efetivamente acolham as demandas.
É nesse contexto que a comunidade humana é chamada a promover a dignidade da pessoa, reconhecendo o valor de cada indivíduo e trabalhando para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e solidária. Em meio às diferenças culturais, sociais e ideológicas, torna-se fundamental fortalecer o diálogo, o respeito mútuo e a convivência democrática, favorecendo relações sociais que valorizem a diversidade, promovam o bem comum e contribuam para uma cultura de paz. Essa perspectiva encontra ressonância na mensagem do Papa Francisco para o 53º Dia Mundial das Comunicações Sociais, em 2019, intitulada “Somos membros uns dos outros”, inspirada na Carta aos Efésios (4,25). Ao refletir sobre a passagem das comunidades das redes sociais para a comunidade humana, Francisco destaca a importância de reconhecer os vínculos que nos unem e a responsabilidade que temos uns pelos outros.
A partir dessa compreensão, a construção de uma sociedade democrática pressupõe reconhecer o outro não como adversário a ser combatido, mas como alguém que compartilha conosco a mesma condição humana e cuja dignidade deve ser respeitada. Essa perspectiva torna-se especialmente relevante em um ambiente comunicacional marcado pela polarização, no qual a circulação de informações descontextualizadas e a disseminação de discursos que acentuam as divergências podem comprometer o diálogo público. Nesse sentido, é fundamental fortalecer uma comunicação comprometida com a verdade, a responsabilidade e o respeito à pluralidade, capaz de favorecer o encontro entre diferentes perspectivas e contribuir para a formação democrática da opinião pública e para a construção do bem comum.




