Segunda carta de Madre Teodora à superiora (segunda parte)
Nesta parte da carta, vemos a Irmã Maria Teodora antes de tornar-se superiora, membro da comunidade dirigida pela Irmã Justina por ordem de Dom Antonio Joaquim de Melo; percebe-se a sua aceitação e alegria diante da missão que lhe foi confiada, de estar no Brasil, mesmo não sendo superiora. A relação de fidelidade com a Madre Geral, na França, e a confiança na Divina Providência são marcas da personalidade que estará, em breve, à frente da comunidade com duas casas em Itu, dois projetos, um ligado à educação (Colégio Nossa Senhora do Patrocínio) e outro à saúde pública (Santa Casa de Misericórdia de Itu).
Não tentarei, minha boa mãe, descrever-vos o quanto essa decisão me causou alegria e verdadeira satisfação. Eu gostaria apenas, se isso fosse possível, de poder estar uma hora junto de vós e falar-vos de coração a coração. Quantas coisas teria para vos dizer! Reconhecer-me-ias, boa mãe? Eu mesma não sei… o clima, o país, as circunstâncias, queria confessar-lhe os erros que cometi desde minha partida de Chambéry, etc. etc. tudo isso mudou tanto minhas ideias que eu quase não me reconheço.
Entretanto, não penseis que estou triste ou que tenho arrependimentos; oh! não, certamente. Não digo que nunca o tenha estado, pois tive momentos bem penosos: a tentação interior veio por vezes visitar-me, e mesmo de maneira bastante violenta; um dia foi o desânimo, levado a tal ponto que estava próximo do desespero. Mas, minha boa mãe, felizmente eu não estava sozinha para combater; assim, a vitória e mesmo a consolação seguiam ordinariamente a luta. Experimentei bem a verdade destas palavras: “aquele que confia no Senhor é como um leão indomável.” Não vos falo de mil e uma coisas que me afligiram profundamente; nisso me detenho, pois Deus somente sabe tudo.
Se eu estivesse junto de vós e pudesse falar-vos de coração a coração, dir-vos-ia até a menor coisa; mas escrever é outra coisa. Ficareis, talvez, surpresa que eu vos escreva tudo isso após a carta que vos enviei do Rio; fiz isso por duas razões: lá eu não estava livre e temia que alguém visse minha carta; além disso, não queria vos assustar, pois nossa travessia já havia sido tão difícil, e não quis dar-vos todas as más notícias de uma só vez.
Não vos aflijais, minha boa mãe, tudo passou; agora, se estivésseis aqui, ver-me-ias bem contente e mais determinada do que nunca a sacrificar-me para a glória do Divino Mestre e para a salvação das almas. A felicidade presente logo me fez esquecer todas as minhas pequenas tristezas passadas. E, além disso, para ser missionária, é preciso sofrer alguma coisa. Nosso Senhor ainda me trata como uma pequena alma: não me deu senão pequenos ensaios de sua cruz; as mais pesadas Ele as reserva às almas generosas que sabem suportar tudo em silêncio. Eu adoro os desígnios da Providência sobre mim e a bendigo continuamente por ter disposto todas as coisas com tanta sabedoria.

