Fé, presença de Deus e vocação ao matrimônio
Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen (RS)
Neste segundo domingo de agosto de 2026, quando comemoramos o Dia dos Pais e a vocação ao sacramento do matrimônio, a Igreja celebra o 19º Domingo do Tempo Comum do ano A.
A liturgia deste dia convida-nos a contemplar a presença discreta e fiel de Deus em meio às tempestades da vida e a renovar nossa confiança nele. As leituras iluminam, de modo particular, a vocação ao matrimônio, caminho de santidade no qual o casal é chamado a caminhar junto, sustentado pela fé e pela graça divina.
Na primeira leitura (1Reis 19,9a.11-13a), o profeta Elias, cansado e perseguido, refugia-se no monte Horeb. Deus não se manifesta no vento impetuoso, no terremoto ou no fogo, mas em uma “leve brisa”. Essa revelação ensina que o Senhor se faz presente de maneira suave e íntima. No matrimônio, muitas vezes, a graça não chega por meio de grandes milagres exteriores, mas no silêncio do cotidiano: no olhar compreensivo, na palavra de ânimo, no perdão oferecido e na fidelidade silenciosa. O casal é chamado a reconhecer Deus nesses gestos simples e a cultivá-los como lugar privilegiado de encontro com o Senhor.
O salmo responsorial (Salmo 85) clama: “Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor e dai-nos a vossa salvação”. A bondade e a fidelidade de Deus encontram-se; a justiça e a paz se beijam. Essa harmonia é o ideal proposto pelo sacramento do matrimônio: duas pessoas que, unidas em Cristo, tornam-se sinal vivo do amor fiel de Deus pela humanidade. A família cristã é chamada a ser uma terra na qual a verdade brota e a justiça desce do céu, educando os filhos no amor e na esperança.
Na segunda leitura (Romanos 9,1-5), São Paulo expressa uma dor profunda por seu povo e recorda os dons recebidos: a adoção, a aliança, a Lei, o culto e as promessas. O apóstolo reconhece que de Israel veio o Cristo segundo a carne. Essa gratidão pelos dons recebidos inspira os esposos a valorizar a graça do sacramento que receberam. O matrimônio não é apenas um contrato humano, mas uma aliança sagrada, uma participação no mistério de Cristo e da Igreja. Os cônjuges são portadores de uma bênção que transcende as gerações e dá continuidade à obra de Deus na história.
O Evangelho (Mateus 14,22-33) apresenta Jesus caminhando sobre as águas e convidando Pedro a fazer o mesmo. Enquanto mantém o olhar fixo no Senhor, o discípulo consegue avançar; quando se deixa dominar pelo vento e pelo medo, começa a afundar. Jesus imediatamente lhe estende a mão e o salva, perguntando: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?”. Essa cena é profundamente significativa para a vida conjugal. O matrimônio atravessa tempestades: dificuldades financeiras, desentendimentos, crises de saúde, cansaço e desânimo. O perigo está em desviar o olhar de Cristo e deixar-se vencer pelo medo. A vocação matrimonial exige uma fé concreta: sair do barco da segurança egoísta e caminhar sobre as águas da doação mútua, confiando na presença de Jesus, que nunca abandona.
Pedro grita: “Senhor, salva-me!”, e é socorrido. No casamento, o casal aprende a clamar junto ao Senhor e a estender a mão um ao outro. A comunhão conjugal torna-se lugar de salvação recíproca quando ambos se apoiam na oração, no perdão e na confiança partilhada. O vento cessa quando Jesus entra no barco. Da mesma forma, a presença de Cristo no lar transforma a tempestade em paz.
Neste 19º Domingo do Tempo Comum, a liturgia recorda-nos que Deus está conosco na brisa suave e nas águas agitadas. A vocação ao matrimônio é um caminho de fé corajosa, confiança diária e presença mútua, que reflete o amor de Cristo. Que os esposos, inspirados por Elias, Paulo e Pedro, mantenham o olhar fixo em Jesus, caminhem juntos sobre as águas e reconheçam, tanto no silêncio quanto na tempestade, a mão salvadora do Senhor, que nunca falha.




