O mestre dos livros
2026 marca os quarenta anos da morte de Rubens Borba de Moraes, intelectual brasileiro pouco conhecido, cuja obra literária e ações em favor da cultura marcaram época e mudaram o panorama da leitura, dos estudos e da produção bibliográfica no país, nas décadas de 1930 e 1940, o iniciador da organização das bibliotecas públicas como meio de formação intelectual em um país que ainda não havia descoberto o significado das universidades.
Rubens Borba de Moraes teve a sua formação regular e universitária (em Letras) na Suíça; era natural de Araraquara (1899). Ao retornar ao Brasil, em 1919, aproximou-se de um quase-parente, Mário de Andrade, que conhecia muito de história e literatura do Brasil, e quase nada do que se escrevia na Europa naquele início do século XX modernista. O encontro promoveu a troca de referências literárias, a amizade e a parceria que acabou reunindo um grupo de intelectuais em São Paulo, dando origem à revista Klaxon e à Semana de Arte Moderna, em 1922.
A organização da coleção Biblioteca Histórica Brasileira, por Rubens Borba de Moraes, é um marco na divulgação de estudos inéditos sobre o Brasil, relatos de viajantes, textos raríssimos sobre história, botânica, observações da natureza, das gentes e das relações sociais, escritos nos séculos XVIII e XIX que, disponibilizados, abriram novos caminhos aos estudos sobre Brasil.
Na cidade de São Paulo, trabalhando no Departamento de Cultura, Rubens Borba de Moraes desenvolveu projetos pioneiros como a biblioteca circulante, em um ônibus, que permitia o acesso à literatura a quem não podia chegar ao acervo, no centro de São Paulo… isto há quase cem anos! Depois viveu no Rio de Janeiro, em Nova York e em Brasília organizando bibliotecas, como a Nacional (do Brasil), da ONU e da Universidade de Brasília, onde também dirigiu um curso de biblioteconomia, aliás que ele introduziu no país.
Parte atraente na sua obra é a publicação sobre livros raros do Brasil, a bibliofilia extraordinária da qual é expoente a Bibliographia brasiliana (1958), estudo, entre outras, sobre a própria biblioteca, uma das mais importantes coleções do gênero, incorporada à USP, na coleção Guita e José Mindlin. Divertido manual sobre o assunto é O bibliófilo aprendiz, que reúne análise, conselhos e cuidados sobre a conservação de livros raros. As cartas que trocou com o livreiro português Antonio Tavares de Carvalho revelam o desejo e os interesses do cultíssimo e paciente colecionador.
Apaixonado por coleções raras, tenho lido e relido as memórias de Rubens Borba, ouvido gravações de suas palestras que trazem excelente impressão do gosto pela literatura e colecionismo.
Em um país em que tão pouco valor se dá aos livros e às bibliotecas, a figura inspiradora de Rubens Borba de Moraes é um convite à reflexão sobre a formação intelectual do brasileiro e sobre o tempo que se gasta na futilidade das redes digitais. A história desse mestre dos livros nos faz pensar que é preciso mergulhar na leitura para aprendermos a pensar como gente grande.




