Separando alhos de bugalhos

Adquiriu enorme repercussão as quatro sagrações episcopais realizadas pela Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, em Écône, na Suíça, no dia 1.º de julho passado, data em que, no calendário tradicional, celebra-se o Preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo. Isso porque a medida foi tomada sem o chamado “mandado pontifício”. Com efeito, assim como Nosso Senhor escolheu Seus 12 apóstolos, é reservado somente ao Papa, Seu vigário na terra, a escolha dos bispos que são os legítimos sucessores dos apóstolos.
A iniciativa resultou na excomunhão automática dos quatro novos prelados, dos bispos sagrante e consagrante, assim como dos demais participantes da celebração que, embora válida – o sacramento foi conferido validamente – revestiu-se de ilicitude uma vez que não contou com expressa autorização do Santo Padre, o Papa. E o ato foi dado como sendo um novo cisma na Igreja Católica, embora, a meu ver, o termo seja impróprio uma vez que o cisma já ocorreu em 1988, quando o Arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da FSSPX, também sagrou quatro bispos sem autorização do então Papa São João Paulo II.
Nos dias seguintes o assunto foi amplamente divulgado pela imprensa que, sendo de orientação predominantemente socialista, não perdeu a oportunidade de justificar as excomunhões e o “cisma” pelo fato de o grupo ser “ultraconservador”, “adepto da missa em latim e de costas para os fiéis”. E de certa forma passando ao largo da questão da desobediência que de fato ensejou as penalidades canônicas. Também não faltaram dioceses a alertar os fiéis, em suas redes sociais, sobre os perigos da participação em celebrações da Fraternidade.
Embora uma coisa não justifique a outra, é fato que os senhores bispos não empreendem igual tratamento quando se trata de padres que aviltam a sagrada liturgia, que misturam elementos de religiões africanas à santa missa, que defendem bandeiras claramente marxistas ou pautas absolutamente contrárias à moral católica. Por conseguinte, por aversão à tradição e aos grupos que com ela se identificam, muitos vêm se aproveitando dessa rebeldia para dissuadir as pessoas da adesão a tais ritos.
Por essa razão é importante separar bem as coisas. A Fraternidade de São Pio X incorreu em excomunhão latae sententiae (automática) por desobediência, ou seja, pelo fato de haver ordenado bispos sem a autorização pontifícia. Para que essa autorização fosse dada e a situação canônica do grupo fosse regularizada – procurando resumir de uma forma bem simplista a questão muito mais complexa – Roma exige a aceitação do Concílio Vaticano II e do magistério pontifício a partir dele. Mas a Fraternidade recusa-se a fazer qualquer concessão nesse sentido. Pior ainda: embora muitas vezes de forma velada, a Fraternidade questiona até mesmo a “validade” dos sacramentos conferidos pela Igreja pós-conciliar, por vezes “re-batizando” ou “re-crismando” fiéis que passam a integrar suas paróquias e comunidades. Isso é muito grave, uma vez que, no final das contas, coloca em dúvida a prometida presença de Cristo na Igreja, notadamente por meio da Eucaristia. Por mais problemático que possa ser o rito novo, que muitos defendem destinar-se a uma aproximação com os protestantes, os sacramentos continuam sendo os sacramentos, a missa continua sendo a missa, e Nosso Senhor não permitiria essa praticamente generalizada orfandade sacramental que insinuam existir.
A “missa em latim e de costas para os fiéis”, a que a mídia se refere, pode ser tanto a missa tradicional, chamada “de São Pio V”, quanto a missa nova, dita “de Paulo VI”. Não é a língua nem a posição do sacerdote que define o rito, uma vez que a missa nova, originalmente, também é celebrada em latim e com o sacerdote e os fiéis voltados para o altar. E ninguém é excomungado por celebrar dessa forma, mesmo a missa no rito tradicional, prova disso são os inúmeros institutos que têm por carisma a sua preservação, assim como de toda a liturgia anterior à reforma ocorrida a partir do Vaticano II. A Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, articulada pelo então Cardeal Ratzinger e erigida por João Paulo II em 1988 para acolher os padres e fiéis que, após o cisma, desejavam viver a liturgia tradicional, porém unidos a Roma, o atesta. O Instituto Cristo Rei e a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, esta com sede em Campos, no Rio de Janeiro, também são exemplos de que é perfeitamente possível compatibilizar a tradição à união com o legítimo sucessor de Pedro.
Com a matéria “Tradicionalismo atrai jovens fiéis: missa em latim e mulheres de véu”, de 08/11/2019, a Revista Veja noticiou o cada vez mais crescente interesse, sobretudo da juventude, à tradição, à fidelidade doutrinária e moral, à disciplina. São pessoas que se identificam com o sagrado, o silêncio, a oração, com o canto verdadeiramente litúrgico… e nesse ambiente buscam a santificação que tantos e tantos que nos antecederam aí alcançaram ao longo de séculos.
Nas recentes palavras do Bispo de Petrópolis/RJ, Dom Joel Portela Amado, presidente da Comissão para a Doutrina da Fé da CNBB, “os jovens têm direito à liturgia tradicional porque o catolicismo é plural por natureza” (17/04/2026). Assim, que ninguém se aproveite da triste situação da FSSPX para dificultar o exercício desse direito aos fiéis que se identificam com o rito tradicional e desejam permanecer em comunhão com o Papa e com a Igreja.
