Efeitos estéticos da música na visão de Tristão Mariano

Tristão Mariano da Costa publicou muitos artigos na velha imprensa paulista sobre estética musical. Se em alguns trechos ele comentava as formas musicais e a sua aparência em determinados lugares da Europa, como a Escola Alemã, ou a Escola Italiana, em outros, ele se concentrava no papel da música no contexto cultural de uma sociedade, os efeitos que certas obras causam nas pessoas, a capacidade de emocionar, engajar, oferecer o belo como parte da formação do caráter dos indivíduos e a sua capacidade de mobilizar moralmente as pessoas, a fim de forjar cidadãos comprometidos com valores sociais e espirituais.
Vejamos como ele considera os efeitos da arte de Euterpe: “Se no papel a música não passa de uma tábua rasa, executada por artistas de gosto, que sabem interpretar o pensamento do autor e dar vida à sua composição, ela produz efeitos arrebatadores. (…) Em nossas festividades religiosas, a música reveste de pompa e majestade a beleza do culto católico. Torna-se um poderoso meio de educação para as massas populares, porque sua influência atrai para nossos templos os sábios e os ignorantes, os ricos e os pobres, os crentes e os descrentes, os jovens e os velhos, todos unidos pela verdadeira confraternização cristã. (…) O templo transforma-se em um palácio todo brilhante pela profusão de suas luzes, pelos ornamentos de sua devoção, pela beleza de sua arquitetura: onde se vai ouvir a palavra de Deus, reproduzida pelo orador sagrado, admirar a poesia dos salmos e dos mistérios que se celebram, os painéis que pendem de seus muros e a música que nos faz cair em meditação (…) E quem há que não sinta-se comovido até os últimos refolhos do seu coração, quando ouve na missa cantada a introdução majestosa do “Kyrie”? Dessa prece sublime em que começa o santo sacrifício e o pecador pedindo perdão de suas culpas? Quem não sentirá aquele arrebatamento de espírito no jubiloso hino dos anjos “Gloria in excelsis?…” (Jornal A Federação, 20.01.1907)
É claro que estamos diante de um homem vivendo o seu tempo, escrevendo em um jornal católico, buscando influenciar os leitores aos efeitos da música no contexto religioso. Mas é significativo notar a sua capacidade de observar questões estéticas, de compreender o que faz, não somente um executante na questão técnica da música, mas um intelectual com clareza de que a sua obra é capaz de vibrar uma comunidade em relação à fé, ao diálogo com o sagrado.
Tristão Mariano foi um compositor preocupado em interpretar o texto sagrado utilizando a sua criatividade musical. Há compositores que escreveram obras sacras bonitas, mas não construíram uma densidade entre texto e linguagem musical. Além de boa prosódia, a música de Tristão busca levar o ouvinte ao encontro do texto latino, valorizando as frases da liturgia que, mesmo os membros da elite social, apreciadores das suas apresentações, hesitavam compreender completamente. Este é um lado muito significativo da sua música.
Luís Roberto de Francisco
Biblioteca Histórica
do Bom Jesus




