A riqueza cultural da Quaresma ituana

Neste mês, estamos vivendo a preparação para a Semana Santa em Itu, tempo da Quaresma pleno em manifestações diversas da cultura material e imaterial, que impressiona pela riqueza expressa em imagens, alfaias, cerimônias e música. É o tempo único de matracas, imagens cobertas, altares em casas, para procissão, conjunto de bens, saberes e modos de fazer próprios da fé católica em nossa terra que, com adaptações à liturgia, mantém-se vivo.
É verdade que muito disso se perdeu e para sempre. As recriações são invenções novas, adaptações que nascem pelo interesse em rever e firmar a beleza dos ritos antigos à geração hodierna. Dão certo porque existe um patrimônio material e uma ancestralidade que oferecem lastro. A respeito de Itu, bem caberia um estudo pontual sobre essas celebrações à luz da Antropologia da Devoção, mergulho mais profundo daquele que eu mesmo fiz, em 2005, ao publicar o livro “A Paixão segundo Itu: cultura e tradições na Semana Santa”.
A via-sacra, realizada semanalmente nas igrejas históricas, além da fé e devoção, tem o peso da beleza de imagens e altares, cenário que leva à meditação e reflexão sobre o mistério da Redenção em uma sociedade em que fé e ritos tradicionais constituem abrigo e expressão. Olhando de outro modo, esse ambiente fortalece as pessoas pela representatividade em relação à memória e ao pertencimento, ritos realizados nas mesmas igrejas, procissões nas mesmas ruas, ciclo anual que marca o calendário social, aguardado e cercado de simbologia pessoal.
Compartilho o prazer de fazer parte da manutenção do patrimônio musical de épocas diversas de nossa história. É verdade que a música dos compositores ituanos está presente o ano todo, na liturgia, graças ao trabalho do Coro do Bom Jesus e da Schola Cantorum. Mas na Quaresma é quando mais se apresenta esse riquíssimo patrimônio da nossa gente, em parceria com o Coral Vozes de Itu, instrumentistas e solistas. É um traço de fé próprio nosso, em Itu, a única cidade paulista e uma das poucas brasileiras a manter vivo o seu patrimônio de música sacra dos séculos XVIII e XIX. Quantos lugares gostariam ter uma obra musical, que fosse, para apoiar e servir como elemento aglutinador e de fortalecimento da sua gente! Sem falar do turismo cultural, a divulgação, atrair gente sedenta de lastro, para vivenciar essa riqueza cultural. Nós temos um conjunto importante de obras musicais, de diversos compositores. Bastaria o Canto da Verônica, do Padre Jesuíno do Monte Carmelo para se perceber a grandeza do que conseguimos manter vivo: ele atravessa gerações, com mais de duzentos anos de vida.
É dever da sociedade e das lideranças apoiar e prestigiar, para que esse patrimônio cultural não pereça, como tanto já se perdeu em Itu. É belíssimo saber que tudo isso existe, mas é preciso cultivar, afinal, como um dom da natureza, sem cuidados, pode morrer.
Vamos viver os nossos ritos com toda a sua beleza, buscando entender e mergulhar nesse diálogo entre fé e cultura.




