Um casal de artistas
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No mesmo ano em que Tristão Mariano se tornou mestre de capela da paróquia ituana, casou-se com uma aluna do grupo musical que acabava de formar. Maria Augusta da Silva Prado (1865 – 1925) era natural de Sorocaba, filha do mestre de banda Joaquim Romão da Silva Prado e Ana Rita Pacheco. Maria Augusta era dotada de belíssimo timbre de soprano e acabou tornando-se a solista do novo grupo.
Se até meados do século XIX os meninos cantores faziam as partes agudas da música sacra (tiples), a partir da década de 1870, vemos mulheres participando nos coros. Quanto ao repertório, contrariando a legislação do Bispado de São Paulo, que previa minúscula interferência da música profana sobre o ambiente litúrgico, a Igreja Matriz ituana foi palco de um dos mais prestigiados exercícios da música sacra paulista, de forte caráter lírico. A década de 1870 viu o gosto musical abrir espaço à ópera italiana, inclusive no coro da igreja, provocando feliz encontro entre a escrita inspiradora de Tristão e o timbre notável de sua esposa.
Na música profana também Maria Augusta participou. Em 1873, cantou no sarau na casa do Dr. Antonio de Queiroz Telles. A nota do jornal refere-se a sua “bela e fresca voz” que “com a prática que já tem soube tirar partido de tão lindas melodias e com justiça ser aplaudida como foi.”
Em 1874, ela e o tenor Eduardo Pons, estiveram na festa do Divino Espírito Santo, na Igreja Matriz de Campinas, quando Maria Augusta cantou o Laudamus de uma Missa de Elias Lobo, diálogo com flauta “dignos um do outro”. O narrador revela o entusiasmo da crítica sobre a cantora: “Chegou a vez do solo ao pregador; música do sr. Tristão; encarregou-se dele a sra. Maria Augusta que teve suspensa a atenção do público às vibrações opulentas de sua voz fluente, natural e suavíssima.”
Já em Itu, na Festa de Nossa Senhora das Dores, o maestro Feliciano Leite Pacheco, comenta a atuação dela no jornal local: “Tivemos ocasião de apreciar o Stabat Mater, composição do mesmo Sr. Tristão, que foi cantado na entrada da procissão, onde uma vez mais a Sra. Maria Augusta revelou os dotes e recursos que dispõe sua melodiosa e extensa voz de soprano.”
Famosa observação sobre ela veio da princesa Isabel, se bem que confusa, de quem não a ouviu e só repetiu, atrapalhada, uma informação. No diário de viagem que fez à Província de São Paulo, a filha do Imperador anotou “Infelizmente já está velha, de voz cansada e não ouvimos D. Maria Augusta que o bom vigário diz ter tido o talento de ‘chocar o sistema nervoso’ com a sua magnífica voz” A cantora não contava 30 anos!
O casal Tristão e Maria Augusta teve nove filhos: Maria Augusta, Ana Rita, Tristão Jr., Clara, Luiz Gonzaga, Noemi, João Baptista, Vicentina e Rubens, formando uma família de músicos orientados pelo mestre Tristão, gente atuante na geração seguinte em Itu.