Do alto da velha matriz
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por Luís Roberto de Francisco

Das aventuras da adolescência, um dos momentos marcantes foi subir pela primeira vez à torre da Matriz. Olhar a cidade do alto era um predicado reservado aos jovens sineiros, destemidos da altura e ávidos pela aventura.
Hoje, a experiência de ver Itu pelas imagens gravadas por drones é comum. Mas àquele tempo, sem acesso aos edifícios do Largo da Matriz, chegar ao campanário da igreja e sentir a liberdade do lado de fora da torre era algo indescritível. Seria possível ver a nossa casa?
A primeira vitória da jornada foi subir a última escada, depois do mecanismo do relógio, excessivamente íngreme, degraus pequenos e alguns mal conservados. Ao chegar à torre, finalmente o encontro com os sinos imperiais, colossos de bronze da mesma idade da fachada (1887), cuja sonoridade é familiar a todo ituano que se preza. Uma pequena janela apenas abria-se para a gente alcançar as estruturas externas do campanário planejado por Ramos de Azevedo. A primeira vista, para os lados da Santa Rita, descortinava o passado que vive naquela antiga capela. No horizonte, como um presépio iluminando-se aos poucos ao cair da noite, o bairro Brasil.
Sentado ali, olhos curiosos buscavam os telhados do casario do Largo e do caminho para o Carmo, moradas das famílias tradicionais que viviam no centro histórico e frequentavam a igreja matriz. Um ponto elegante e principal, o Museu Republicano, de azulejos na fachada; seu telhado, escondido pela platibanda agora se descortinava; o relicário glorioso ainda estava fechado para restauro e nós aguardávamos a reabertura para conhecer a história através de retratos, mobília severa e documentos que vimos na infância.
Por sobre as copas das árvores, de outra parte, enxergava-se, ao longe, um ou outro teto da Rua Paula Sousa. No fundo, a igreja do Bom Jesus. Eu que olhara tanto a matriz vista de lá, agora podia contemplar a beleza de sua arquitetura pela vereda de telhados antigos. Não sei dizer que sentimento bom era aquele, sensação reconfortante de pertencimento…
A última vista foi a da gente de Itu que tomava a praça e ia se aglomerando para a saída da procissão da padroeira. O enlevo com a beleza e o passado foi interrompido pelo chamado do Zico sineiro: “a procissão vai sair!”
De dentro da torre, cada qual em seu posto, começamos então o repique festivo. Ali não havia hierarquia social, jovens de todas as origens mostravam seu talento rítmico. Coube-me a marcação com um dos sinos médios. A sonoridade era ensurdecedora.
Mons. Camilo Ferrarini organizava o cortejo. Nos intervalos do repique ouvíamos a sua voz de comando, ao longe. Era a medida para saber o quanto deveríamos ainda tocar.
O vozerio das preces do povo, a marcha da banda de música, o foguetório e os vivas do nosso pároco fecharam a noite gloriosa do alto da torre: pela fresta da janela vi o andor da Senhora Candelária chegando de volta à nossa matriz, um espetáculo de luz e fé que ficou guardado na memória.