Ad petendam pluviam

por Prof. Luís Roberto de Francisco
O título da matéria se refere à antiga tradição cristã de se fazer procissão para pedir chuva. Inclusive há, dentre as fórmulas do Missal Romano, uma específica ad petendam pluviam. A missa se aplica em ocasiões como a que estamos passando nestes meses de seca ou chuvas insuficientes.
Há alguns anos conheci um códice de partituras da Baixa Idade Média, encontrado na biblioteca da famosa Abadia de Montserrat, na Espanha. Aquela igreja é um dos mais importantes centros de peregrinações da Europa, que ainda recebe romeiros de todo o mundo. As músicas do “Livro Vermelho da Abadia de Montserrat”, como ficou conhecida a compilação, foram apresentadas pelo Coral Vozes de Itu na igreja do Bom Jesus, há alguns anos, em uma performance intitulada “O Peregrino”. Esse repertório medieval foge ao modelo tradicional do Canto Gregoriano, ao qual estamos acostumados; conta com textos em latim, espanhol e catalão.
A fé popular católica desenvolveu a prática da procissão para pedir chuva. Muitos romeiros iam a Montserrat a fim de rogar à Virgem que intercedesse a Deus pelo fim da seca. Dentre as partituras cantadas pelos romeiros, alguém se lembrou de registrar também uma “copla de rogativa”, cantada em Sorio (Espanha): Virgen Santa del Espino, te sacamos de tu casa. La necessidad obliga por que hay mucha falta de agua. (Virgem Santa de Espino, te tiramos de tua casa. A necessidade obriga, porque há muita falta de água). O texto sugere que a imagem está sendo retirada da igreja para que a chuva venha…
No cancioneiro popular brasileiro encontramos um “bendito para pedir chuva”, recolhido por pesquisadores em Carinhanha, interior baiano, às margens do Rio São Francisco. Entrevistado, o velho Nicácio, que na juventude fora vaqueiro, disse que na grande seca de 1898 percorria as ruas da cidade cantando: “Santa Maria Madalena, rogai a Nosso Senhor que chova na terra; chuva por esmola, pão que nos consola, ora pro nobis!”
Francisco Nardy Filho (1879 – 1959), antigo cronista ituano, publicou interessante matéria para narrar como os nossos antepassados pediam chuva, no século XIX (A cidade de Itu, vol. III, p. 223). Reunido em procissão, o povo partia da Igreja Matriz Candelária a caminho da ermida de Nossa Senhora do Montserrat, em Salto. Os seis quilômetros eram percorridos com grande esperança. De lá se trazia a imagem da Virgem em andor, disputado pelos ituanos, caminho de oração e penitência. Chegando à Matriz ela ficava em exposição e vigília até que a chuva viesse. Nardy conta que, algumas vezes, bastou a imagem chegar à porta da igreja paroquial e a chuva veio forte.
Creio não ser mais possível reconstituir a música que se cantava nas procissões ituanas ad petendam pluviam. Isso se perdeu no tempo, afinal era música do povo, sem registro em partitura. Ou quem sabe algum antigo tenha ouvido e ainda guarde na memória? Mas não custa a gente pedir à Mãe do Céu para que a estiagem passe logo e a vida da gente volte ao normal.
