Adorna a tua morada, ó Ytu-guaçu!

por Prof. Evandro Antonio Correia
Acolhe com afeição Maria, a Candelária!
O episódio evangélico de Lucas (2, 22-39) narra o velho Simeão indo ao «encontro do Senhor». Daqui seu nome grego: «hypapante». O velho Simeão e a profetisa Ana reconhecem o Menino Jesus como o Messias esperado. O «encontro» é motivado pela observância da Lei mosaica: quarenta dias após o nascimento do primogênito, cada mãe hebreia deveria apresentar-se ao Templo para ser purificada e resgatar o recém-nascido do sacrifício.
As primeiras celebrações deste acontecimento do cristianismo, como religião, foram testemunhadas em Jerusalém, narradas no livro «Diário de Egéria» (395). São os relatos da peregrinação feita no Oriente próximo pela nobre Egéria. Ela chamou a comemoração com o nome genérico de «Quadragesima de Epiphania» (quarenta dias depois da Epifania). Por ser celebrada com grande alegria se difundiu, aos poucos, por todo o Oriente cristão.
Relata o Patriarca Severo, durante o Império Romano do Oriente “cristão” (século VI), que se celebrava o «hypapante» em Antioquia e em Constantinopla. Ao observar as várias fontes dessa festa, percebe-se que, provavelmente, as comemorações do «hypapante» se celebrariam em alguma igreja de Constantinopla, que o imperador Justino a estendera para a capital e ao Império; e o imperador Justiniano (542), em ocasião de uma peste, ter-lhe-ia dado maior impulso.
E no Ocidente? Roma, ficaria para trás? Seguindo o exemplo de Constantinopla, também inseriu a celebração de «hypapante» entre suas festas. A notícia se encontra no livro de celebrações litúrgicas de Roma, o chamado «Sacramentário Gelasiano», atribuindo ao Papa Gelásio (492-596), a instituição da festa do «Encontro». Nesse livro foram recolhidas todas as orações e o modo como se celebrariam os ritos dos sacramentos e dos sacramentais. Nele, a «Festa das candeias», foi indicado com a terminologia «In purificatione Sanctæ Mariæ», mesmo sendo comemorado a «Apresentação de Jesus no Templo». No texto do sacramentário a procissão não era prevista; entretanto, a celebração foi testemunhada com o uso concomitante de círios acesos. É interessante notar que naquela época a vida era muito diferente. Em se tratando de celebrações feitas ao entardecer ou mesmo noturnas, era natural que se utilizassem velas ou tochas.

Entre os anos 650 e 700, Papa Sérgio I, teria instituído a procissão de «hypapante», bem como ao estabelecer a sua repetição em outras três festas marianas: Anunciação, Assunção e a Natividade de Maria. Então, junto com o Papa, o povo afluía para o cortejo que iniciava na igreja de Santo Adriano em direção à Basílica de Santa Maria Maior, seu máximo santuário mariano.
Contudo, no restante da Igreja ocidental, a nova festa romana começou a ser celebrada mais tarde e, segundo o monge beneditino Alcuíno (+804), sem grandes efeitos. Somente no século XI, na Espanha, fora inserida nos calendários litúrgicos.
Seguindo na Roma papal, o «hypapante» tomara grandes proporções, realizado com grande solenidade e acentuada penitência. E outro fato, relatado por Alcuíno, diz que «naquele dia toda a população da cidade em um único conjunto, com as luzes dos círios brilhando, com suma devoção participavam à celebração da Missa solene, e ninguém entrava na igreja estacional (Santa Maria), se não empunhasse uma flama». Apesar disso, as primeiras fórmulas de benção somente foram acrescentadas, entre os séculos IX e X, indicado pelo «Sacramentário de Pádua».
Outro costume narrado pela tradição, oriunda do Patriarcado de Milão, seria que no final do século XI uma procissão saia da igreja chamada Santa Maria Beltrade em direção à catedral dedicada à Natividade de Maria, que trazia a imagem da Virgem com o Menino sobre uma liteira. O mesmo costume foi observado no Patriarcado de Aquiléia, centro de grandes e importantes escritores cristãos como Cromácio e Rufino, contemporâneos a Agostinho, Ambrósio, Jerônimo.
E a «Festa das candeias», também, ofereceu grande variedade de textos, além dos bíblicos. Um dos mais belos, de origem bizantina, é este: «Adorna a tua morada, ó Sião, e recebe o Cristo Rei. Acolhe com afeição Maria, que é a porta do céu, porque traz consigo o Rei da glória, o Rei da nova luz. Aí está a Virgem, apresentando em suas mãos o seu Filho, que foi gerado antes da aurora. Simeão, tomando-o em seus braços, anuncia aos povos: Este é o Senhor da vida e da morte e o Salvador do mundo».
Expressivo, também, é o relato de que as velas deviam ser acesas em um círio bento para esse propósito. De fato, muitos dos formulários começam com uma «benção da nova luz». Dessa forma, as candeias benzidas que, levadas para casa, eram (ou melhor, são) portadoras de um sacramental, com sobrenatural eficácia nas epidemias, nos partos, nos temporais, na cabeceira dos enfermos.
Na disposição do calendário litúrgico católico, antes do Concílio Vaticano II, a Festa da «Apresentação do Senhor» concluía o Tempo do Natal. Na realidade, aquilo que ouvimos durante a celebração tem por objetivo primário a comemoração da oferta e do resgate do Menino Jesus no Templo, após quarenta dias, e o encontro com Simeão e Ana. Atualmente, a festa recuperou seu nome originário de «Apresentação do Senhor», deixando o título de «Purificação da Beata Virgem Maria». Pois bem, de todos estes textos vemos que a comemoração dessa festa é de origem bizantina; mas, a «Liturgia da Luz» é propriamente romana. Introduz a celebração com a benção das velas que ritualiza a expressão do Evangelho: «os meus olhos viram a sua salvação…luz para iluminar as nações…»: Cristo! Assim, o carácter mariano vem dado pela perícope evangélica, pois Maria aparece no ato de oferta do Filho como aquela que traz a Luz, mãe de Cristo «Luz das nações». Por isso, essa comemoração se insere no dinamismo da Encarnação, nos acontecimentos que manifestam o Senhor como Messias, a nossa salvação, o nosso libertador, em direção ao mistério pasqual.

