As portas do inferno não prevalecerão contra ela…
Ficou famosa a resposta do Cardeal Francis George, então arcebispo de Chicago, nos Estados Unidos, quando da eleição de Joseph Ratzinger como Papa, em 19 de abril de 2005. Enquanto Bento XVI era apresentado ao povo na loggia da Basílica de São Pedro e os cardeais que o haviam escolhido aglomeravam-se nas sacadas laterais, notou-se que George fitava algo à sua frente, com olhar distante e bastante concentrado. Mais tarde, indagado por repórteres curiosos com sua expressão contemplativa, revelou o que ocupava seus pensamentos naquela hora: “Eu estava olhando na direção do Circo Máximo, do Monte Palatino, onde os imperadores romanos outrora residiam e reinavam, e de onde assistiam às perseguições dos cristãos, e pensei: Onde estão seus sucessores? Onde está o sucessor de César Augusto? Onde está o sucessor de Marco Aurélio? E, finalmente, quem se importa? No entanto, se você quiser ver o sucessor de Pedro, ele está bem aqui do meu lado, sorrindo e acenando para as multidões”.
Belíssima resposta, não? Com efeito, pouco menos de dois mil anos atrás, naquele mesmo local, São Pedro foi crucificado de cabeça para baixo. Um velho analfabeto, morrendo de forma humilhante e execrado por uma multidão sedenta de sangue. Em destaque, assistindo a tudo, estava o “divino” César, que pensava estar aniquilando uma seita de fanáticos. Mas o Império Romano ruiu e os césares passaram. Roma tornou-se a sede da Igreja e os cristãos se multiplicaram “até os confins da terra”.
Semelhante pensamento tomou conta de mim quando acompanhei a recente visita apostólica do Papa Leão XIV à França. Cumprindo uma intensa agenda, de 25 a 28 de setembro de 2026, Sua Santidade encontrou-se com autoridades daquele país, celebrou a santa missa para multidões em Paris, Lourdes e Metz, discursou na UNESCO, visitou e rezou piedosamente na gruta das aparições, em Lourdes, reuniu-se com o episcopado francês, visitou obras de caridade e assistência… O encontro de oração com mais de 80 mil jovens na noite de 25 de setembro, no Stade de France, surpreendeu-me particularmente pela piedade e carinho com que o sucessor de Pedro foi recebido e tratado, numa França que – embora filha primogênita da Igreja – é (será ainda?) um dos países mais secularizados da Europa, protagonista das mais escabrosas revoluções culturais e morais nos últimos séculos. Foi emocionante quando jovens representando cada santo francês (o país é o segundo a mais dar santos à Igreja – 175!) posicionaram-se diante do Papa, cada qual com a mão no ombro de outro jovem à frente, de modo a significar que a santidade deve ser passada e praticada pelas futuras gerações. Fora a beleza do evento, os testemunhos, a palavra do Papa, a queima de fogos, os cantos, afinadíssimos – com destaque para a Salve Regina, entoada por praticamente todo o estádio.
As demais celebrações e visitas, igualmente concorridas e piedosas. Paris parou para ver e acompanhar o Papa, com ruas e praças lotadas, numa demonstração de fé e submissão filial ao sucessor de Pedro. Quão tocante foi a chegada do Santo Padre à Gruta de Massabielle, em Lourdes, quando se ajoelhou piedosamente diante da Imaculada Conceição e, em absoluto silêncio, dele e dos milhares de fiéis que o acompanhavam, rezou detidamente, tocou as paredes de pedra da gruta, provou da água brotada durante as aparições a Bernadette Soubirous, em 1858, e acendeu uma vela à Virgem.
Mas o que mais me impressionou mesmo nessa visita apostólica à França, e que me fez associar à resposta do Cardeal George, a que me referi, foi a santa missa celebrada por Leão na Praça da Concórdia, em Paris, no dia 26 de setembro, diante de uma multidão estimada de mais de 800 mil fiéis. Sim, ali na Place de la Concorde, a maior da capital francesa, às portas da badalada avenida Champs-Élysées, palco das principais reuniões da sanguinária Revolução Francesa, no século XVIII. Ali, onde instalada a guilhotina que executou milhares de pessoas, desde autoridades e religiosos até os próprios manifestantes. Ali, onde revolucionários motivavam-se pela máxima de que “O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre” (Jean Meslier, 1664-1729), ou da ideologia (ou religião) positivista, cujo idealizador, Auguste Comte (1798-1857), propunha substituir a religião tradicional e o Deus cristão pela chamada Religião da Humanidade. Ali, onde Voltaire (1694-1778) profetizou o fim da Fé e da Igreja e decretou a extinção do Catolicismo quando afirmou que “cem anos após a minha morte, a Bíblia será apenas uma peça de museu”, mais de dois séculos depois, o Chefe Supremo da mesma Igreja celebrava o Sacrifício de Nosso Senhor e mostrava o Seu Corpo e Sangue a quase um milhão de fiéis.
A Igreja de Cristo, justamente porque é de Cristo, permanecerá: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18).




