Questões Primeiras de Teologia Espacial
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Durante séculos, a Teologia precisou responder perguntas que surgiam à medida que o homem alargava seus horizontes. Agora, porém, o horizonte deixou de ser apenas terrestre. Se os projetos atuais de exploração avançarem, não parece absurdo imaginar, dentro de algumas décadas, grupos humanos vivendo por períodos em solo lunar. E, onde estiver o homem, estarão também suas perguntas, sua fé, seus pecados, sua esperança e sua necessidade de Deus.
A Igreja já acompanhou navegadores, soldados, migrantes e cientistas nos lugares mais improváveis. Não haveria razão para abandonar o homem justamente quando ele deixasse a Terra. Afinal, a missão recebida de Cristo não conhece oceanos, fronteiras ou órbitas. Se houver almas na Lua, haverá também missão. O desafio seria novo; a missão da Igreja, porém, seria exatamente a mesma.
A primeira questão é simples: havendo católicos numa colônia lunar, seria necessária a presença de um padre? Evidentemente, sim. Uma comunidade que permaneça meses ou anos longe da Terra não pode viver apenas de transmissões de Missas. A Eucaristia não atravessa uma tela. Confissão, Unção dos Enfermos e celebração eucarística exigem presença sacerdotal.
O problema já começa a aparecer até no âmbito militar. Os Estados Unidos criaram, em 2019, a United States Space Force, a Força Espacial, sexto ramo de suas Forças Armadas, encarregado das operações e da defesa dos interesses americanos no espaço. A assistência religiosa aos seus “Guardians” já existe por meio do corpo de capelães ligado ao Departamento da Força Aérea. Mas, quando houver militares efetivamente destacados para bases lunares, teremos o primeiro capelão militar espacial propriamente dito?
E a primeira Missa na Lua? Poderia ser celebrada. Mas surgiriam questões práticas e litúrgicas curiosíssimas. Como conservar pão e vinho? Como manipular o cálice em gravidade equivalente a apenas um sexto da terrestre? Seria necessário um altar adaptado? Que calendário litúrgico seguir numa realidade em que o dia lunar, astronomicamente, é tão diferente do nosso? A Igreja teria de estabelecer normas próprias, sem alterar aquilo que pertence à essência dos Sacramentos.
Depois viria o Direito Canônico. Uma colônia permanente poderia constituir uma paróquia? E, crescendo a população, uma diocese? Ou seria mais apropriada uma administração apostólica, diretamente vinculada à Santa Sé? No caso dos militares, parte da assistência poderia permanecer ligada aos ordinariatos militares; entre civis, porém, seria necessário definir quem possuiria jurisdição pastoral.
Há ainda uma questão fascinante: o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Uma base lunar certamente reuniria católicos, protestantes, ortodoxos, judeus, muçulmanos e pessoas sem religião. Num ambiente pequeno, hostil e dependente da colaboração de todos para sobreviver, o diálogo religioso deixaria de ser apenas cortesia institucional. Poderia tornar-se experiência cotidiana de convivência, testemunho e respeito, sem relativizar a própria fé.
Talvez pareça cedo para fazer essas perguntas. Não é. A Teologia sempre precisou pensar antes que os problemas chegassem à porta. Agora, pela primeira vez, essa porta pode estar a 384 mil quilômetros de distância.
E onde houver um ser humano olhando para o céu — mesmo estando na Lua — haverá espaço para perguntar por Deus.

Amém