Papa incentiva pesquisas para humanizar a inteligência artificial
Leão XIV defende uma ética capaz de orientar as tecnologias digitais e impedir que interesses privados se sobreponham ao bem da humanidade
O Papa Leão XIV incentivou pesquisadores de diferentes países a continuarem os estudos sobre a inteligência artificial e a colaborarem com os governos na criação de políticas que coloquem as tecnologias digitais a serviço da vida, do bem comum e da paz.
O pronunciamento aconteceu durante uma audiência com aproximadamente 500 integrantes do Instituto Internacional de Ciências Administrativas (IIAS). O encontro foi realizado na Sala Clementina, no Vaticano, por ocasião da conferência anual da instituição, promovida em Roma. Vatican News
Com sede em Bruxelas, na Bélgica, o Instituto reúne pesquisadores e especialistas de diversas partes do mundo. Fundada em 1930, depois da grande crise econômica mundial, a organização promove estudos, eventos e propostas de reforma destinadas ao aperfeiçoamento da administração pública.
Ao recordar a história do Instituto, o Pontífice destacou sua responsabilidade de chamar a atenção das autoridades políticas para as transformações sociais e ajudá-las a encontrar respostas adequadas às novas realidades.
Velocidade exige discernimento e equilíbrio
Um dos temas abordados na conferência foi o uso equilibrado das tecnologias digitais. A preocupação também está presente na encíclica Magnifica Humanitas, na qual Leão XIV reflete sobre a proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial.
Para o Papa, a inteligência artificial já afeta diretamente a vida cotidiana e avança em grande velocidade. Esse desenvolvimento levanta questionamentos sobre a capacidade humana de controlar as máquinas e sobre o risco de as pessoas se tornarem vítimas das próprias invenções.
Leão XIV manifestou especial preocupação com a transferência de decisões relacionadas à vida humana para sistemas automatizados. Dependendo dos critérios utilizados, algoritmos podem influenciar o acesso ao trabalho, à saúde, à segurança e a outros direitos fundamentais.
Por isso, o Pontífice acredita que os estudos desenvolvidos por instituições como o IIAS podem oferecer contribuições importantes às autoridades públicas. As pesquisas podem ajudar os governos a estabelecer normas, procedimentos de fiscalização e políticas capazes de orientar o desenvolvimento tecnológico para o bem da humanidade.
O Papa defendeu prudência, auditorias rigorosas e, quando necessário, um ritmo mais cauteloso na adoção de determinadas ferramentas. Essa postura, segundo ele, não representa oposição ao progresso, mas responsabilidade diante das possíveis consequências para a família humana.
Ética deve acompanhar o avanço tecnológico
Leão XIV ressaltou a necessidade de definir princípios éticos que acompanhem o desenvolvimento e a utilização da inteligência artificial. O controle dessas tecnologias, observou, encontra-se frequentemente concentrado nas mãos de grandes grupos econômicos e tecnológicos, enquanto os Estados enfrentam dificuldades para acompanhar, fiscalizar e regulamentar as inovações.
Nesse cenário, existe o risco de que decisões importantes sejam orientadas prioritariamente por interesses comerciais. Para o Pontífice, “o bem da família humana não seja sacrificado por interesses privados”.
A tecnologia deve permanecer subordinada à dignidade da pessoa e às necessidades da sociedade. Isso exige transparência, responsabilidade e atenção às consequências sociais, econômicas e políticas das ferramentas digitais.
O Papa também retomou reflexões de Francisco sobre a expansão tecnológica. Seu antecessor defendia que a pesquisa técnico-científica fosse acompanhada por uma adequada formação para a responsabilidade e orientada para a paz, o bem comum e o desenvolvimento integral da pessoa e das comunidades.
Inteligência artificial a serviço da vida e da paz
Ao dirigir-se aos pesquisadores, Leão XIV pediu que os estudos contribuam para a humanização das tecnologias digitais. Isso significa desenvolver ferramentas que auxiliem as pessoas e as instituições, sem substituir indevidamente a consciência, a liberdade e a responsabilidade humanas.
A atuação dos governos será fundamental nesse processo. As administrações públicas deverão encontrar meios de proteger os cidadãos, fiscalizar os sistemas automatizados e garantir que a inovação beneficie toda a sociedade, especialmente as pessoas mais vulneráveis.
O desafio não consiste em impedir a evolução tecnológica, mas em assegurar que ela seja guiada por valores éticos. Para o Papa, os avanços da inteligência artificial devem promover a dignidade humana, fortalecer o bem comum e colaborar para a construção da paz.
Com informações de Andressa Collet, do Vatican News.




