Os leigos, protagonistas da nova evangelização!
Cardeal Orani João Tempesta – Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Avançando em nosso itinerário ao longo do Mês Vocacional, somos chamados a refletir sobre a vocação laical. A missão dos leigos e leigas não é um arranjo funcional recente nem uma concessão da hierarquia diante da escassez de ministros ordenados. Trata-se de uma dimensão constitutiva da Igreja, enraizada nas primeiras comunidades cristãs e reafirmada pela eclesiologia contemporânea.
Nas origens do cristianismo, não havia separação entre clero e laicato nos moldes organizacionais que surgiriam posteriormente. Todos os batizados se reconheciam como membros do Povo de Deus. Os Atos dos Apóstolos e as cartas paulinas apresentam homens e mulheres como colaboradores fundamentais na expansão da fé, entre eles Priscila e Áquila, Lídia e Febe.
Com o passar dos séculos e a institucionalização da Igreja durante a Idade Média, fortaleceu-se uma visão piramidal e clerical. Frequentemente, o leigo passou a ser considerado um membro passivo da Igreja que aprende, enquanto ao clero se atribuía a responsabilidade quase exclusiva pelo ensino e pela missão.
O resgate bíblico e patrístico da vocação laical alcançou seu ponto culminante no Concílio Vaticano II. A constituição dogmática Lumen Gentium apresentou o capítulo sobre o Povo de Deus antes daquele dedicado à hierarquia, reafirmando que a dignidade cristã fundamental nasce do Batismo. Incorporados a Cristo, os leigos participam, a seu modo, de sua missão sacerdotal, profética e real, atuando na Igreja e no mundo.
O decreto Apostolicam Actuositatem dedicou-se especificamente ao apostolado dos leigos, definido como participação na missão salvífica da Igreja. Mais tarde, São João Paulo II aprofundou esse ensinamento na exortação apostólica Christifideles Laici. Inspirado na imagem evangélica da vinha, o documento recorda que os leigos não são trabalhadores de segunda classe, mas ramos vivos unidos à Videira, que é Cristo. O Catecismo da Igreja Católica também ensina que eles são chamados a santificar o mundo a partir de dentro, como fermento na massa.
No Brasil, a CNBB fortaleceu essa reflexão com o Documento 105, “Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade”, publicado em 2016. O texto ressalta a identidade e a atuação dos leigos como sujeitos eclesiais maduros. O Mês Vocacional, celebrado em agosto, nasceu durante a Assembleia Geral da CNBB de 1981 para despertar nas comunidades a responsabilidade pela oração, promoção e sustentação das diversas vocações.
Ao longo do mês, a Igreja recorda os ministérios ordenados, a vocação matrimonial e familiar, a vida consagrada e a vocação laical. Quando há um quinto domingo, celebra-se o Dia Nacional dos Catequistas. A escolha do quarto domingo para destacar os leigos reafirma a missão da maioria do Povo de Deus, presente nas realidades temporais. Já na solenidade de Cristo Rei, celebra-se o Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas, valorizando sua presença cada vez mais transformadora na sociedade.
Hoje, a evangelização enfrenta desafios como a revolução digital, a inteligência artificial, as crises ambientais, a polarização social, a solidão e as novas formas de trabalho. A hierarquia não consegue chegar sozinha aos ambientes onde os leigos já vivem e atuam. Por isso, o futuro da missão exige uma Igreja verdadeiramente sinodal, na qual bispos, padres, religiosos e leigos caminhem juntos, respeitando a diversidade de vocações e carismas.
Amados cristãos leigos e leigas, não considerem o Batismo apenas um acontecimento do passado, mas uma fonte permanente de graça. O mundo necessita de uma Igreja em saída, que tenha em seus fiéis os pés e as mãos de Cristo.
Nas profissões, nos debates éticos sobre as tecnologias, na política, na defesa do planeta e no cuidado com as famílias, vocês são enviados como apóstolos. Não se intimidem diante da complexidade de nosso tempo nem aceitem o clericalismo que reduz o leigo a simples executor de tarefas. Assumam, com coragem, seu lugar de sujeitos eclesiais. Sejam a presença de Cristo onde a fé é desafiada e o amor se faz necessário. Como fermento na massa, transformem a sociedade por dentro, para a glória de Deus e a edificação de seu Reino.




