O Império do Divino
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A celebração de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa, ocupa uma das mais altas posições no calendário litúrgico católico. Junto com as solenidades do Natal, da Epifania e da Ascenção do Senhor, só está abaixo da celebração da Páscoa, aqui entendida como todo o Tríduo Pascal.
Pentekoste significa “quinquagésimo dia” e no Antigo Testamento era a festa das primícias das colheitas, celebrada 50 dias após a Páscoa. No Novo Testamento é a comemoração da descida do Espírito Santo sobre a Igreja reunida no cenáculo, em forma de línguas de fogo, da primeira pregação do evangelho e da fundação da Igreja. O capítulo segundo do livro dos Atos dos Apóstolos, além de narrar-nos a vinda do Espírito Santo, mostra-nos como os Apóstolos, até então escondidos e receosos, passam a pregar o Evangelho destemidamente a uma Jerusalém lotada de estrangeiros que os ouviam em suas próprias línguas. Assim como a célebre pregação de Pedro a converter cerca de três mil pessoas de uma só vez. Iniciava-se então a verdadeira colheita, de almas para Nosso Senhor.
O Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, é verdadeiro Deus com o Pai e o Filho desde toda a eternidade. Sua missão é renovar a face da terra, assistindo e preservando a Igreja do erro; sustentando e fortalecendo todos os fiéis com seus dons.
Trazida pelos colonizadores portugueses ao Brasil, a festa do Divino Espírito Santo é uma das mais queridas do nosso povo, especialmente dos moradores da área rural, sendo marcada por manifestações religiosas e folclóricas cheias de simbolismo. Tida como a festa da fartura, é característica sua a distribuição de pães e gêneros alimentícios aos mais necessitados.
Em Itu, cidade histórica e uma das mais antigas do país, não poderia ser diferente. A Festa do Divino Espírito Santo reveste-se de grande pompa, com missas, orações e cânticos especiais, desfiles, procissões, quermesses etc. Mas entre as muitas práticas e tradições que envolvem as festividades, talvez a mais significativa seja a do Império do Divino. A cada ano é escolhida a residência de uma família, geralmente próxima à igreja paroquial, para sediar o Império. Momentos antes do tríduo e da missa principal da festa, o pároco dirige-se à casa para buscar solenemente a corte que participará da celebração religiosa.
O grande liturgista Pe. Reus, em seu “Curso de Liturgia”, ensina que “Os festejos em louvor ao Divino Espírito Santo foram celebrados pela primeira vez por ordem da ‘rainha santa’ de Portugal, D. Isabel (1271-1336). A fim de conseguir a paz política com o reino de Aragão, e a paz doméstica entre o seu esposo, o rei D. Dinis e seu filho, D. Afonso, recorreu ao Espírito Santo.
Consagrou-Lhe o país, ofereceu-Lhe a sua coroa preciosíssima e a levou em solene procissão por suas próprias mãos para a igreja e distribuiu muitas esmolas. Tendo alcançado a paz, ordenou que todos os anos se repetissem as mesmas solenidades. Esta santa herança se guardou, mas é mister guardar também o espírito de devoção, que inspirou à santa rainha este ato solene de gratidão” (REUS S.J., Pe. João Batista. Curso de Liturgia. 3.ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 1952).
Crianças devidamente caracterizadas de príncipes e pajens acompanham até à Matriz de Nossa Senhora da Candelária o imperador e a imperatriz, esta levando a coroa nas mãos, vez que se destituiu dessa honraria em favor do Espírito Santo.
Ao som de “Oh, Divino Paráclito Espírito, sois a fonte de vida, do amor! Abençoai nossa terra ituana que vos rende sagrado louvor”, é belíssima a entrada triunfal da corte na igreja, ali representando todas as esferas da sociedade a renderem graças ao Espírito Santo.