Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

Diác. Ezio Benedito Ribeiro
Paróquia Senhor do Horto
e São Lázaro
“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
Evangelho (Mt 26,14-27,66)
A liturgia deste último domingo da Quaresma convida-nos a contemplar esse Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-Se servo dos homens e deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos.
A cruz (que a liturgia deste domingo coloca no horizonte próximo de Jesus) apresenta-nos a lição suprema, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação da vida por amor.
A morte de Jesus tem de ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida.
Desde cedo, Jesus apercebeu-se de que o Pai O chamava a uma missão: anunciar esse mundo novo, de justiça, de paz e de amor para todos os homens. Para concretizar este projeto, Jesus passou pelos caminhos da Palestina “fazendo o bem” e anunciando a proximidade de um mundo novo, de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos.
Ensinou que Deus era amor e que não excluía ninguém, nem mesmo os pecadores; ensinou que os leprosos, os paralíticos e os cegos não deviam ser marginalizados, pois não eram amaldiçoados por Deus; ensinou que os pobres e os excluídos eram os preferidos de Deus e aqueles que tinham um coração mais disponível para acolher o “Reino”; e avisou os “ricos” (os poderosos, os instalados) de que o egoísmo, o orgulho e o fechamento só podiam conduzir à morte.
O projeto libertador de Jesus entrou em choque — como era inevitável — com a atmosfera de egoísmo e de opressão que dominava o mundo.
As autoridades políticas e religiosas sentiram-se incomodadas com a denúncia de Jesus: não estavam dispostas a renunciar aos mecanismos que lhes asseguravam poder, influência, domínio e privilégios; não estavam dispostas a desinstalar-se e a aceitar a conversão proposta por Jesus.
Por isso, prenderam Jesus, julgaram-no, condenaram-no e pregaram-no numa cruz.
A morte de Jesus resultou das tensões e resistências que a proposta do “Reino” provocou entre os que dominavam o mundo. Podemos também dizer que a morte de Jesus é o culminar da sua vida; é a afirmação última, porém mais radical e verdadeira (porque marcada com sangue), daquilo que Jesus pregou com palavras e gestos: o amor, o dom total, o serviço.
Na cruz, vemos aparecer o Homem Novo, aquele que ama radicalmente e que faz da sua vida um dom para todos. Porque ama, este Homem Novo assume como missão a luta contra o pecado — isto é, contra todas as causas que geram medo, injustiça, sofrimento, exploração e morte.
Celebrar a paixão e a morte de Jesus é abismar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil.
Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites e fragilidades, experimentou a fome, o sono e o cansaço, conheceu as tentações, tremeu perante a morte e suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, traído e abandonado, continuou a amar.
Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir conosco “até ao fim dos tempos”: esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração dos que creem.
Contemplar a cruz, onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus, significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade.
Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão e medo; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor.
Deus abençoe a todos !




