“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) e a Campanha  da Fraternidade 2026
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Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

“Jesus veio morar entre nós” (Jo 1,14). Esta foi, no passado, a grande notícia da fé cristã e continua sendo, no presente, a mensagem que ressoa em nossos corações e em nossas vidas. Deus veio ao mundo para a salvação da humanidade e, ao fazê-lo, quis construir entre nós a sua morada, a sua casa. Inspirada nesse lema, a Campanha da Fraternidade 2026 (CF 2026), vivida no tempo quaresmal de conversão, assume as palavras do apóstolo e evangelista São João para destacar a importância da moradia digna. A Igreja no Brasil, por meio da CNBB, das dioceses, paróquias e comunidades, reforça a prioridade desse tema na vida comunitária e social.
Aprofundando o lema 2026
Jesus veio morar entre nós (cf. Jo 1,14). Ele deu sentido a todas as coisas ao assumir plenamente a realidade humana, exceto o pecado. Tornou-se igual a nós em tudo, menos no pecado. Não permaneceu distante dos sofrimentos do povo: aproximou-se dos pobres, dos doentes, dos excluídos, dos que não tinham casa nem dignidade. Sua presença em nosso meio não é passageira, pois, como professamos no Credo Niceno-Constantinopolitano (381), “o seu Reino não terá fim”. Deus não se afasta do seu povo; caminha conosco para nos conduzir à vida verdadeira.
Ao encarnar-se, Jesus enfrentou também as realidades humanas e sociais do seu tempo. Chamou seus discípulos a uma justiça superior à dos fariseus e doutores da Lei (cf. Mt 5,20), uma justiça que não se limita às aparências, mas se concretiza em atitudes e obras. Assim, revelou que o Reino dos Céus se constrói na prática do amor e da misericórdia.
A encarnação do Verbo de Deus
A encarnação é dom gratuito de Deus e, ao mesmo tempo, convite à responsabilidade humana. Não foi mérito da humanidade que Deus viesse ao seu encontro; tudo partiu da iniciativa amorosa do Pai. Os Padres da Igreja, primeiros escritores cristãos, sempre destacaram a vinda de Cristo como a maior manifestação do amor divino.
O homem e a mulher, ao pecarem, afastaram-se do Criador. Era necessária a reconciliação da humanidade com Deus. O Filho de Deus, feito Filho do Homem, realizou essa reconciliação por meio de sua encarnação, paixão, morte e ressurreição. Ao assumir a condição humana, Cristo restabeleceu o vínculo rompido pelo pecado e trouxe vida nova a todo o gênero humano. Em sua cruz e ressurreição, revelou que o amor é mais forte que o pecado e a morte.
Ele é o novo Adão
São Paulo apresenta Jesus Cristo como o novo Adão (cf. 1Cor 15,45-49). Enquanto o primeiro Adão foi desobediente, afastando-se do projeto divino, Cristo foi obediente ao Pai até o fim. A desobediência levou o ser humano à perda da harmonia original, simbolizada pela expulsão do jardim. Ao perceberem sua nudez, homem e mulher experimentaram o medo e o desejo de esconder-se (cf. Gn 3,7-8).
Jesus, o novo Adão, reconduz a humanidade à comunhão com Deus. Pela sua obediência, restitui ao ser humano a dignidade perdida e o chama novamente à vida plena. Ele resgata o homem e a mulher do afastamento e os conduz à verdadeira esperança, que só pode vir do Senhor.
Vida digna
O fato de Jesus ter vindo morar entre nós ilumina também a realidade da moradia digna. A casa é o espaço do aprendizado, onde se formam valores transmitidos pelos pais e avós, onde se cultivam a paz, o respeito e o amor. A família favorece a unidade, a fraternidade e o crescimento humano.
A vida cristã é essencialmente comunitária. Seguindo a palavra de Jesus, somos chamados a fazer o bem, amar os inimigos e buscar a perfeição do amor do Pai (cf. Mt 5,43-44.48). Uma moradia digna não é apenas um teto físico, mas condição para o desenvolvimento integral da pessoa.
A CF incentiva ações concretas
A Campanha da Fraternidade propõe ações concretas em favor da moradia digna. Milhares de pessoas vivem em situação de rua; a rua não é lar, mas consequência da falta de condições econômicas e sociais. Diante dessa realidade, surgem iniciativas solidárias que devolvem dignidade e esperança aos mais vulneráveis.
É dever do poder público promover políticas habitacionais eficazes, pois dispõe dos meios necessários para isso. Contudo, a Igreja incentiva a prática da caridade e o compromisso social, promovendo gestos concretos que ajudem as pessoas a conquistarem uma vida mais digna.
A CF 2026 convoca todos a se empenharem pela moradia digna como direito fundamental. Jesus veio morar entre nós e continua fazendo de nosso coração a sua casa.