Redescobrir o silêncio  em um mundo barulhento
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“Dêmos espaço ao silêncio: silenciemos um pouco as televisões, os rádios, os smartphones. Meditemos a Palavra de Deus, aproximemo-nos dos Sacramentos; escutemos a voz do Espírito Santo, que nos fala ao coração.”
Essas são palavras do Papa Leão XIV na oração do Ângelus do último domingo (22/02/2026), 1º Domingo da Quaresma. O Santo Padre convidou os fiéis a redescobrir o valor do silêncio e da escuta interior, propondo um jejum não apenas de alimentos, mas também de ruídos e distrações digitais.
Será que realmente estamos precisando desse jejum?
Não há dúvida que a sociedade atual se tornou muito dependente da tecnologia. Mesmo tarefas mais simples do dia a dia somente são realizadas com o uso de smartphones e aplicativos de mensagens, que conectam pessoas nas mais distantes localidades do planeta – e até mesmo aquelas que estão na sala ao lado.
Se por um lado, a tecnologia tornou-se importante e até essencial para a vida em sociedade, também é fato que ela tem tomado espaços importantes de nossas vidas. Uma rápida pesquisa na mostra que o tempo médio diário de uso de telas é extremamente alto. No Brasil — um dos países mais digitalizados — os números são particularmente expressivos. As pesquisas mostram que as pessoas passam, em média, mais de 9 horas por dia na internet. O tempo total conectado chega a 9h32 diárias, entre os maiores índices do mundo! Apenas no celular, o uso médio já ultrapassa 5 horas por dia. Isso significa que uma parcela enorme do dia é consumida por tecnologia.
Quando ajustamos para o tempo realmente disponível ao longo do dia (excluindo o sono), percebemos que os brasileiros passam mais de 56% do tempo acordado em frente às telas. Mesmo estimativas mais conservadoras mostram que o celular sozinho consome cerca de 1/4 do tempo útil diário.
O fenômeno está longe de ser um privilégio dos brasileiros. A média mundial de uso de smartphone está próxima de 6 horas por dia. Em países europeus, o uso está entre 6 e 7 horas diárias, especialmente entre jovens. Esses dados reforçam que não se trata de um caso isolado, mas de uma tendência global.
Diante desses dados, cabe uma pergunta: por que somos tão atraídos pelas telas, a ponto de gastarmos tanto tempo com elas?
Além da evidente utilidade que nos oferecem, há evidências sobre o porquê desse excesso: os aplicativos utilizam mecanismos como “scroll infinito” – a rolagem sem fim da tela – e notificações que prolongam o uso sem que o usuário perceba. Isso faz com que os usuários passem mais tempo do que planejam, entrando em ciclos de consumo contínuo. Dessa forma, o uso elevado não é totalmente intencional, mas induzido pelo design tecnológico, que cumpre o papel de manter os usuários conectados às plataformas o maior tempo possível.
Assim, o “jejum tecnológico” proposto pelo papa Leão XIV se torna extremamente oportuno e necessário. Precisamos redescobrir o silêncio em um mundo barulhento. É preciso abrir espaços em nosso dia a dia para que a voz de Deus possa ser ouvida.