Para um bom carnaval

O Carnaval sempre foi tempo de alegria, convivência e celebração da vida. Muito antes dos desfiles modernos, dos trios elétricos e das fantasias elaboradas, já existiam, na cristandade medieval, festas que antecediam a Quaresma. Eram dias de música, comida farta, encontros e descontração popular. A própria lógica do calendário cristão ajudou a moldar esse período: antes do tempo de jejum e penitência, havia um momento de respiro, de convívio social mais intenso e até de certo alívio das tensões do cotidiano.
A Igreja, ao longo dos séculos, nunca foi inimiga da alegria. Pelo contrário, reconhece que o ser humano precisa de descanso, lazer e momentos de descontração. O riso, a festa e a convivência são dimensões legítimas da vida. O problema nunca esteve na alegria em si, mas nos excessos que ferem a dignidade da pessoa, desrespeitam o próximo ou afastam o coração de Deus.
Por isso, falar de “um bom Carnaval” não é uma contradição. É um convite ao equilíbrio. É possível celebrar, viajar, reunir amigos, participar de festas e eventos culturais sem perder a consciência, o respeito e o senso de responsabilidade. A alegria verdadeira não humilha, não agride, não explora o corpo do outro como objeto, não incentiva a violência, nem transforma a liberdade em desordem.
O Carnaval também é um espelho da sociedade. Ele revela o que vai no coração das pessoas. Se há solidariedade, partilha e amizade sincera, a festa se torna mais bonita e humana. Se, ao contrário, predominam o egoísmo, o descontrole e a falta de limites, o que era para ser celebração vira motivo de dor, acidentes, brigas e arrependimentos.
Como pessoas de fé, somos chamados a viver esse tempo com consciência. Não se trata de condenar a festa, mas de iluminá-la com valores. Cuidar do próprio corpo, evitar excessos no consumo de álcool, respeitar a si e aos outros, não se colocar em situações de risco, proteger os mais frágeis e manter o coração ligado a Deus são atitudes que fazem toda a diferença.
Além disso, o Carnaval é uma porta de entrada para algo maior. Logo depois, a Igreja nos conduz à Quaresma, tempo de conversão, oração e caridade. Viver bem os dias de festa ajuda a entrar melhor nesse caminho espiritual. A alegria equilibrada não é inimiga da vida interior; ela prepara o coração para uma experiência mais profunda com Deus.
Que cada um possa aproveitar esses dias com responsabilidade, gratidão e espírito fraterno. Que a música, a dança e o encontro não nos façam esquecer quem somos e a quem pertencemos. E que, ao final da festa, possamos seguir adiante com a consciência tranquila, o coração leve e a alma em paz, prontos para caminhar com Deus em todas as estações da vida.
Amém




