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“De fato, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para os que são salvos, para nós, ela é poder de Deus“ (1Cor 1,18).

Caríssimos irmãos e irmãs, no próximo dia 14 de setembro, a Igreja católica celebra a Festa da Exaltação da Santa Cruz. Essa festividade está ligada à dedicação de duas importantes igrejas ou basílicas construídas na cidade de Jerusalém, por ordem do imperador romano, Constantino, filho de Santa Helena, que, segundo a tradição, teria encontrado a cruz de Jesus. A festa em honra da Santa Cruz foi celebrada pela primeira vez no ano de 335, por ocasião da dedicação destas duas igrejas basílicas de Jerusalém.
Muitas pessoas hoje podem se questionar sobre a imagem da Cruz, pois a entendem como algo forte demais, que traz muita dor e sofrimento e que fere a sensibilidade humana. Por isso, é importante percebermos que nós não exaltamos a crucificação de pessoas, mas reconhecemos, na crucificação do Senhor Jesus na Cruz, nossa salvação e um caminho de santificação. É neste sentido que exaltamos a Santa Cruz.
A Festa da Exaltação da Santa Cruz convida-nos a contemplar a cruz de Jesus. Ela é a expressão suprema do amor do Deus que veio ao nosso encontro, que aceitou partilhar a nossa humanidade, que quis fazer-se servo da humanidade, que se deixou matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. Oferecendo a sua vida na cruz, em dom de amor, Jesus indicou-nos o caminho para chegar à vida plena.
Os apóstolos resumiam sua pregação no Cristo crucificado e ressuscitado dos mortos, de quem provêm a justificação e a salvação de cada um. São Paulo dizia que Cristo “anulou o documento que, por suas prescrições, nos era contrário e o eliminou, cravando-o na cruz” (Cl 2,14). É por isso que cantamos na celebração da Adoração da Santa Cruz na Sexta-Feira Santa: “Eis o lenho da cruz, do qual pendeu a salvação do mundo: Vinde! Adoremos!”.
Exaltar a Santa Cruz é reconhecer que Cristo venceu as contradições, inconsistências e incoerências da humanidade, expressas na queda de Adão e Eva, quando se deixaram seduzir pelo sonho delirante de se tornarem deuses. Na contramão deste estéril delírio de grandeza, Deus escolhe tornar-se humano, para mostrar que no chão da realidade é que o ser humano pode e deve participar da vida divina, não pela via de uma autoexaltação egoísta e narcísica, mas pelo caminho árduo e exigente de uma entrega ao outro por amor, à semelhança de Cristo na Cruz.
Somente pela cruz, pela morte ao próprio Eu, à própria vontade, para viver com fé, alegria e ação de graças a vontade de Deus, é que poderemos nos salvar. E é o próprio Senhor quem nos diz isso muito claramente: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9,23). Portanto, evitemos a ilusão das alegrias efêmeras e passageiras, e muitas vezes falsas, que nos prometem as diversões mundanas, as vaidades e os êxitos temporais, porque não constituem a verdadeira essência de nossa existência.
Não há cristão sincero que não seja um ardoroso amigo da Cruz e que, a exemplo de Maria, Nossa Senhora das Dores, não compreenda e se alegre em saber que as dificuldades e penas da vida presente ocupam parte saliente no seu peregrinar por esta terra de exílio rumo à plena vida. É conhecendo e aceitando essa condição de peregrino e batalhador − contra seus próprios defeitos e limitações −, e unindo-se aos méritos infinitamente preciosos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que abrirá para si as portas da eterna bem-aventurança.
Com muita razão, a Igreja universal digna-se a cantar as glórias da nossa salvação, louvando a imagem sagrada do lenho da Cruz: “Salve Santa Cruz, glória do mundo e esperança verdadeira, fonte de nossa alegria, sinal da salvação, proteção nos perigos, árvore de vida que porta aquele que é a vida do mundo. Alegra-te e exulta, Igreja de Deus; pois três vezes beata, tu adoras hoje o madeiro da Santíssima Cruz, em volta do qual os coros de anjos assistem assiduamente como ministros no serviço de seus louvores” (Salve Crux Sancta).

A todos abençoo.
Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano

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