A fome é urgente

Há alguns anos utilizei um manual de História que, nas primeiras páginas, trazia incômoda pergunta aos jovens estudantes: em um país que produz tanta comida, por que há milhões de famintos?
A Campanha da Fraternidade deste ano volta ao assunto já duas vezes discutido pela Igreja, com o tema “Fraternidade e Fome”, baseando-se nas palavras de Jesus no Evangelho de Mateus: “Dai-lhe vós mesmos de comer!” O importante mandamento cristão se torna mais significativo neste tempo posterior à pandemia, afinal, hoje são mais de trinta milhões de pessoas passando fome no Brasil, segundo o IBGE.
O agronegócio, que produz alimentos para exportação, tem lucros extraordinários. E não é crime e nem pecado plantar, colher e vender, aliás, uma das mais antigas ocupações humanas. O vergonhoso e desumano é não haver a obrigatoriedade de um programa de distribuição da produção à população carente. Grandes latifundiários acumulam lucros que seus familiares e descendentes não conseguirão gastar mesmo que sejam excessivamente pródigos. A lógica da acumulação de riquezas (praticamente uma doença) não cabe no Cristianismo, não é evangélica. A Campanha da Fraternidade chama a atenção de toda a gente a se responsabilizar com a sociedade, olhando para o outro e vendo nele alguém que precisa, porque a fome é urgente. Mas também pretende criar uma consciência de distribuição da riqueza.
Há sempre quem pense e acuse esta forma de pensar, absolutamente cristã, de comunista. É gente que caiu na farsa do capitalismo, de fazer imaginar que a fome não existe, que a pobreza é uma questão de incompetência e que não temos responsabilidade com o “fracasso” do outro. O capitalismo é competitivo; salários baixíssimos resultam em fome, desespero e falta de dignidade. Certamente nenhum de nós que lemos este jornal já passou fome de verdade; a ausência da alteridade – em reconhecer o sofrimento do outro – não permite a reflexão maior.
Antes de haver capitalismo, socialismo e comunismo, Jesus criou um novo mandamento, de amarmos uns aos outros. Não pode haver amor onde há fome.
Quando foi lançado o tema da Campanha de 2023, surgiram vídeos de católicos com certa audiência dizendo que não se deve dar dinheiro no ofertório da missa do Domingo de Ramos, que é direcionado à Fraternidade, porque a CNBB destina o recurso a ONGs que fazem ações sociais. Bem, se o católico não acredita e não respeita os bispos, em quem ele acredita?
Os últimos anos, no Brasil, têm sido de confusão, marcada por falsos profetas. Há um tempo morreu nos Estados Unidos um desses infelizes chamado Olavo de Carvalho. Mantido por capitalistas que dominam grandes recursos financeiros, gravava programas através de redes sociais, criando confusão com sua pseudofilosofia. A quem discordava de suas falácias, chamava de idiota. Já se vê aí a ausência do espírito cristão! Entre suas baboseiras, atribuía problemas do mundo como resultado do fracasso de programas sociais, jamais da acumulação de lucros.
A Quaresma é tempo de pensar e agir. Acabemos com a fome e a ignorância no Brasil.


