Diferentes caminhos da justiça social

por Olga Sodré
Por quem falam as vozes que prometem justiça social e que interesses defendem?
O agravamento das crises sociais colocou para as eleições brasileiras questões relacionadas à justiça social. Diante da multiplicação de promessas, como diferenciá-las? Um critério importante consiste em distinguir quem sustenta a voz da fala. Que grupos defendem os atuais arautos eleitorais? O que propõem para resolver essas questões?
Escutar os profetas bíblicos nos permite entender um sentido mais amplo de justiça social e seu papel central na História humana. Eles nos transmitem o projeto de Deus para a humanidade. Suas profecias não se dirigiam apenas à sua época. Não falavam em nome pessoal, mas anunciavam a vontade de Deus ouvida em contemplação, exigindo profundas mudanças em favor do povo. Suas vozes denunciavam injustiças sociais e violências contra os pobres e desfavorecidos.
Esses pioneiros da justiça social nem sempre entendiam completamente o que estavam anunciando, porém nos transmitiram indicações sobre o plano de Deus e as mudanças futuras. Jesus profetizou sobre o Reino de Deus, como ele seria e como nos prepararmos. Ao contemplarmos as profecias, compreendemos que a justiça social requer condições básicas de vida para o povo, contudo ela não se reduz à conquista do poder, de mais direitos ou de igualdade entre os seres humanos.
A maioria das pessoas não relaciona a política e a espiritualidade, mesmo quando os acontecimentos e eventos naturais advertem sobre futuras calamidades resultantes da falta de amor ao próximo e dos modos de vida destrutivos. Muitos dos que lutam pela justiça social não levam em conta a dimensão psicológica e espiritual do processo destrutivo em curso, praticando formas dessas tendências destrutivas. Algumas espiritualidades nem se interessam pela transformação social. Correntes religiosas, inclusive católicas, não relacionam sua vida espiritual com suas manifestações de ódio e intolerância. Elas reproduzem palavras da Bíblia sem meditar sobre sua aplicação na atualidade. Não buscam aprofundar o tipo de reflexão que proponho.
As lutas sócio-políticas são relevantes, sendo fundamental refletir sobre nossas práticas e reconhecer as falsas promessas. As apresentações da justiça social pelos profetas bíblicos podem nos esclarecer, pois apontam um caminho de mais ampla justiça social, de profunda transformação humana e radical mudança do nosso mundo. Meditar com os profetas bíblicos nos conduz ao conhecimento divino sobre quem somos, para onde nos dirigimos e como essa mudança se realizará, ensinando-nos que o Reino de Deus e sua justiça não são obras apenas humanas.
Sem pretensão de esgotar assunto tão complexo, limito-me a advertir que as promessas eleitorais não podem trazer uma solução para as injustiças. Elas tratam da disputa pelo poder e buscam soluções de acordo com os grupos políticos. Nosso discernimento e escuta das mensagens proféticas podem nos ajudar a escolher a melhor alternativa, procurando a união entre os que se propõem a avançar em direção a uma transformação mais profunda. Nas condições presentes, cabe-nos expressar o amor e a justiça a nós revelados. Participemos ativamente da vida social e do processo eleitoral, defendendo os mais pobres e discriminados, evitando a ganância para acumular riquezas e procurando corrigir as distorções e desequilíbrios que prejudicam o próximo.




