Gregoriano não é chorinho de saudade
Certa ocasião, o finado bispo diocesano de Jundiaí, Dom Roberto Pinarello de Almeida, concelebrava uma missa na igreja do mosteiro de São Bento de São Paulo. Como se sabe, o mosteiro paulistano – fiel ao carisma da ordem beneditina – conserva o uso do canto gregoriano em suas liturgias, notadamente na santa missa e no ofício divino, rezado publicamente. O canto dos monges, acompanhado pelos acordes do grande órgão alemão Walcker, com mais de seis mil tubos, setenta registros, quatro teclados e pedaleira completa, atrai centenas de pessoas semanalmente àquele templo, graças não só à erudição musical, mas sobretudo pelo enlevo espiritual que proporciona às almas.
Ao final da celebração – solene, pomposa – Dom Roberto, já na sacristia da imponente basílica de Nossa Senhora da Assunção, elogiava, empolgado, o rigor da liturgia, em especial o canto gregoriano das partes fixas e móveis da missa, dizendo-se embevecido e saudoso de seus tempos de juventude… quando residia em Roma… e se cantava o gregoriano… etc., etc., etc., quando o abade do mosteiro, interrompendo-o, em tom respeitoso mas firme lhe disse: “Excelência, desculpe-me, mas o gregoriano não é chorinho de saudade”.
Ao longo de toda a História, a música sempre teve papel relevante nas mais diversas culturas e épocas. Com a Igreja não foi diferente, de modo que em seus quase dois mil anos de existência a música sempre exerceu posição de destaque na Liturgia, principalmente após o papa São Gregório Magno, no século VI, grande reformador da liturgia e estruturador e promotor do canto litúrgico que, graças a ele, ficou conhecido como canto gregoriano.
Fato é que, não obstante a grande e quase generalizada derrocada litúrgica ocorrida após o Concílio Vaticano II (1962-1965), o gregoriano continua sendo o canto oficial da Igreja latina. Tanto que o próprio Concílio, em sua constituição sobre a Liturgia, Sacrosantum Concilium, prevê a sua preponderância nas funções sagradas: “A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar.” (n. 116). Portanto, como bem advertiu o abade beneditino ao final daquela missa, o gregoriano não é uma página virada na Igreja, relegada aos poucos redutos monásticos existentes por aí. Pelo contrário, é o canto próprio da ação litúrgica, que, coadjuvado pela polifonia e pelos cantos devocionais populares, deveria ocupar o primeiro lugar em nossas celebrações no louvor dos fiéis e na aproximação do divino.
No entanto, à exceção desses poucos mosteiros de vida contemplativa, o canto gregoriano foi praticamente banido de nossas paróquias e comunidades para dar lugar ao iê iê iê embalado por violões, tambores, chocalhos e – pasmem – até baterias que fazem inveja a muitas bandas de rock and roll.
Lembro-me de ter participado, certa vez, da missa no dia da memória litúrgica de São Gregório Magno. O celebrante, ao lembrar alguns dados históricos do santo no sermão, falava que a Igreja devia a São Gregório “uma de suas maiores riquezas” que era o canto gregoriano. Entretanto, jamais vi naquela comunidade um único incentivo, uma iniciativa sequer para formar um grupo que o cantasse, para ensinar um ou outro hino aos fiéis. Não há entre os párocos e reitores de igrejas o sério empenho em formar uma cultura musical no povo, de modo a enobrecer as celebrações e tornar aquela comunidade mais aderente à norma litúrgica oficial. Parece ser mais cômodo – e de fato é – formar grupos que executam um repertório moderno de cantos que apelam para a emoção dos fiéis, mas que, em termos de espiritualidade, de oração, de ascese, são extremamente rasos.
Creio que um dos caminhos mais eficazes para fazer frente à superficialidade que inunda nossas igrejas, mesmo o clero, passe necessariamente por um resgate do canto litúrgico nas celebrações, especialmente o canto gregoriano. A racionalização de tudo, fruto de um humanismo e cientificismo que também penetraram o catolicismo, demanda uma maior valorização da oração e do canto que sempre foi uma das formas mais elevadas de oração. E nada melhor, para isso, que lançarmos mão desse tesouro inestimável da Igreja que é o canto gregoriano.




