Daniel, uma pastoral que enxerga no escuroDom Leomar Brustolin Arcebispo de Santa Maria (RS)
Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)
O livro de Daniel nasceu em meio à experiência de um povo ameaçado e procurou preservar sua capacidade de esperar. Há momentos em que a missão da Igreja não é oferecer respostas apressadas, mas ajudar as pessoas a enxergar além da dor presente. A linguagem apocalíptica faz isso: retira o véu das aparências e anuncia que a história não foi entregue definitivamente aos poderes que parecem dominá-la.
Na narrativa bíblica, Daniel vive em terra estrangeira, conhece outra cultura e atua em estruturas de poder que não compartilham sua fé. Ainda assim, mantém aberta a janela pela qual reza voltado para Jerusalém. A Igreja também precisa viver assim: inserida no tempo presente, atenta às suas perguntas e capaz de dialogar com suas linguagens, sem fechar a janela que a mantém voltada para Deus. Uma presença fiel, que escuta e testemunha.
Nas visões de Daniel, os impérios aparecem sob a figura de feras quando fazem da violência, da arrogância e do domínio seus princípios. Esse contraste pede discernimento pastoral. Nem tudo o que cresce é sinal do Reino; nem tudo o que impressiona revela vitalidade; nem todo poder se exerce como serviço. Precisamos perguntar se nossas relações, decisões e estruturas refletem a humanidade evocada pela figura do Filho do Homem ou se reproduzem, ainda que discretamente, a lógica das feras.
Daniel inspira uma pastoral capaz de atravessar a noite. Nossa sociedade tem pouca paciência com processos longos. Queremos soluções imediatas para crises familiares, sofrimento, violência e dificuldades na transmissão da fé. Existem, porém, noites que exigem perseverança, companhia e oração. A esperança cristã não promete que tudo se resolverá rapidamente. Ela nos sustenta no caminho porque confiamos que a última palavra pertence a Deus.
Precisamos, igualmente, recuperar o horizonte da eternidade. Falamos muito sobre viver melhor e, às vezes, pouco sobre a plenitude para a qual caminhamos. Daniel ousa anunciar a ressurreição e o julgamento. À luz de Cristo, a fé proclama que a morte não encerra a vocação humana à comunhão com Deus. Esse horizonte não diminui nosso compromisso com a vida presente: aprofunda o cuidado para cada pessoa, especialmente com quem sofre ou é esquecido.
Daniel também ensina que o testemunho não depende da força. Sua fidelidade interpela governantes e pessoas de outras convicções. Em uma cultura cansada de discursos, uma comunidade pode anunciar o Evangelho pelo modo como vive. Por que cuida dos pobres? Por que não responde ao ódio com ódio? Por que permanece unida? Por que continua a esperar? Cristãos que vivem essas perguntas tornam a presença de Deus novamente perceptível.
A cova não é o último lugar de Daniel. A perseguição não encerra sua história, e os impérios não possuem a palavra definitiva. Sua esperança no Reino que não passa, encontra, para os cristãos, sua luz em Jesus Cristo. Eis uma pastoral do amanhecer: pés fincados na história, olhos atentos ao sofrimento e coração voltado para Deus. Mesmo quando tudo parece noite, a Igreja é chamada a perceber e anunciar os primeiros sinais da nova manhã.



