Eu vi o Senhor
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Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

Maria Madalena é a mulher do alvorecer da Igreja, estrela das primeiras horas após a vitória de Cristo sobre a morte. Diante do sepulcro vazio e de uma comunidade ainda desconfiada, ela recebeu do Mestre uma notícia que mudou o destino da humanidade. Depois de atravessar a noite da desilusão, saiu do jardim proclamando: “Eu vi o Senhor” (Jo 20,18). A liturgia de sua festa, celebrada em 22 de julho, convida-nos a contemplar esse encontro decisivo.
O mais antigo resumo das aparições do Ressuscitado encontra-se em 1Coríntios 15,3-8. São Paulo recorda que Cristo morreu, foi sepultado, ressuscitou e apareceu a Cefas (Pedro), aos Doze e a outros discípulos. Maria Madalena não figura nessa lista, mas os Evangelhos preservam uma tradição igualmente fundamental.
Marcos a apresenta entre as mulheres que vão ao túmulo. Mateus relata que ela recebeu a missão de anunciar a Ressurreição aos discípulos. Lucas recorda seu nome ao lado de Joana e Maria, mãe de Tiago, registrando, porém, que os apóstolos consideraram o testemunho delas um “delírio” (Lc 24,11). João coloca Maria Madalena no centro da narrativa, desenvolvendo com profundidade seu encontro pessoal com Cristo ressuscitado.
Essa convergência dos Evangelhos possui grande valor histórico e teológico. Em uma sociedade que restringia o testemunho público das mulheres, seria improvável que diferentes comunidades cristãs mantivessem essa tradição se ela não estivesse profundamente enraizada na experiência pascal. Assim, a memória canônica restitui aquilo que uma fórmula resumida não podia expressar: a primeira proclamação da Ressurreição foi confiada àquela que permaneceu fiel junto ao túmulo.
Não se trata de uma concessão social. O próprio Cristo estabelece uma relação direta entre revelação e missão. Maria fala porque foi enviada pelo Senhor. É dessa missão que nasce sua autoridade.
Em 2016, o Papa Francisco elevou a celebração de Santa Maria Madalena à categoria de festa, o mesmo grau litúrgico reservado aos apóstolos, aprovando o prefácio Apostolorum apostola (Apóstola dos Apóstolos). O texto recorda que ela amou Cristo em vida, permaneceu aos pés da cruz, procurou-o no sepulcro e foi a primeira a adorá-lo ressuscitado, sendo enviada para anunciar a Boa-Nova aos próprios apóstolos.
A expressão “Apóstola dos Apóstolos”, já utilizada por São Tomás de Aquino, reconhece precisamente essa missão singular.
Esse reconhecimento possui profundas consequências para a compreensão da mulher na Igreja. Em Maria Madalena, a mulher aparece como discípula, testemunha e portadora da Palavra. Todo o anúncio cristão nasce daquela proclamação simples e decisiva: “Eu vi o Senhor.”
Desde então, nenhuma reflexão sobre a missão da mulher na Igreja pode ignorar esse acontecimento, pois foi a ela que o Evangelho confiou a primeira proclamação da Ressurreição.24