Aos pés da Cruz

Da Redação
Jesus morreu.
Não no alto do Calvário.
Não entre dois ladrões.
Não sob um céu que se rasgava.
Desta vez,
Jesus morreu aos pés do Cruzeiro de São Francisco.
E a cidade continuou caminhando.
Os sinos tocaram.
As luzes permaneceram acesas.
Os carros passaram.
As vitrines brilhavam.
As conversas seguiam.
E Deus morria em silêncio.
Ninguém ouviu o seu último suspiro.
Talvez porque aprendemos a enxergar monumentos,
mas deixamos de reconhecer pessoas.
Talvez porque seja mais fácil contemplar a cruz de madeira do que abraçar a cruz de carne.
Naquela noite fria, o vento parecia rezar um salmo de lamento.
As pedras antigas da praça guardavam um segredo
que muitos olhos não quiseram ver:
Cristo estava ali.
Deitado sobre o chão.
Coberto não por um manto,
mas pela indiferença.
Transpassaram novamente o seu lado.
Não com a lança do soldado.
Mas com a pressa.
Com o medo.
Com o preconceito.
Com o conforto.
Com o “não é problema meu”.
Com o “alguém fará alguma coisa”.
Enquanto nossas casas respiravam o calor dos
cobertores,
Jesus respirava o frio da noite.
Enquanto repartíamos o pão entre os nossos,
o Pão da Vida morria de fome diante de nós.
E, então, começaram as justificativas.
“Era apenas um morador de rua.”
“Era um bêbado.”
“Não queria trabalhar.”
“Escolheu essa vida.”
Como é antiga essa multidão…
É a mesma que um dia perguntou:
“Que mal Ele fez?”
Mudaram-se os séculos.
Mudaram-se as roupas.
Mudaram-se os discursos.
Mas continua sendo fácil condenar quem já não
consegue se defender.
Jesus morreu.
Não porque lhe faltasse uma cruz.
Mas porque lhe faltaram mãos.
Faltou um olhar.
Faltou um nome.
Faltou alguém que o chamasse de irmão.
Agora surgirão debates.
Serão procurados culpados.
Uns acusarão governos.
Outros acusarão políticas públicas.
Outros ainda transformarão essa morte em bandeira.
Mas o Evangelho continua fazendo a única pergunta que realmente importa.
Onde estavas tu?
Porque antes de existir um problema social,
existiu um encontro que não aconteceu.
Antes da omissão das estruturas,
houve a omissão do coração.
É mais confortável discutir sistemas
do que dobrar os joelhos.
É mais fácil escrever opiniões
do que tocar as chagas.
Os pobres nunca foram um problema para Jesus.
Foram sacramento de sua presença.
Quem os evitou,
evitou o próprio Cristo.
Quem passou adiante,
passou adiante do Evangelho.
Quem fechou os olhos,
escureceu a própria alma.
Naquela noite,
não morreu apenas um homem.
Morreu um pouco da nossa humanidade.
Morreu a capacidade de reconhecer Deus escondido sob roupas rasgadas.
Morreu a delicadeza.
Morreu a compaixão.
Morreu o encontro.
E o silêncio daquela praça continua pregando uma homilia que nenhuma palavra conseguirá superar.
A cruz permaneceu de pé.
Cristo permaneceu aos seus pés.
E nós…
nós continuamos passando.
Até que um dia o próprio Senhor nos pergunte:
“Eu estava ali.
Você me viu?”




