O gosto italiano na música de Tristão Mariano

A antiga música sacra e de concerto brasileira construiu-se pela influência da tradição portuguesa que, por sua vez, foi inspirada na composição napolitana. Em Itu, tempo do Padre Jesuíno do Monte Carmelo e seus discípulos, a mais importante influência veio de André da Silva Gomes (1752 – 1844), português radicado em São Paulo, professor de latim que, em fins do século XVIII, sem outros compositores na cidade, acabou tornando-se mestre de capela e professor de alguns que tiveram o privilégio de estudar contraponto e composição. A sua obra se tornou um modelo para os músicos paulistas.
A feição dessa música chegou à geração seguinte, com singelas árias, modinhas e trechos da música sacra, solos cativantes que Elias Lobo, mesmo formado na melhor escola da Corte, manteve em sua música sacra e profana. Em toda a obra desse músico encontra-se um apelo pela música nacional, seja pelo uso frequente da língua vernácula e apreço pela tradição da melodias cativantes, mas pouco desafiadoras.
Tristão Mariano compôs uma obra mais ousada do ponto de vista das melodias, muitas voltadas à interpretação de sua esposa, Maria Augusta. Essas partes solistas e duetos, mas também os trechos corais, são marcados pela inspiração na obra de italianos. É verdade que essa tendência havia tomado muitos lugares na Europa e fora dela, na segunda metade do século XIX, dada a visibilidade da ópera de Donizetti e Verdi, por exemplo. A agilidade com que essa influência chegou a Itu se deu pelo gosto italiano dos jesuítas da Província Romana, quase todos músicos, no Colégio São Luís e na Igreja do Bom Jesus. A ligação de Tristão com os padres proporcionou maior interesse pela obra de compositores como Rossini, Mercadante e Ruta. Na coleção Tristão Mariano da Costa, no Museu da Música – Itu, encontram-se arranjos que ele fez para a música desses compositores, incluindo Verdi, de quem ele adquiriu uma cópia da primeira edição da Messa di Requiem, de 1874, uma das mais importantes obras musicais do compositor.
Além de executar a obra dos italianos, Tristão Mariano da Costa insere em sua composição elementos da música lírica. O final do Credo da Missa de Santo Antonio, por exemplo, é um trecho muito próximo de ária da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Nessas composições Tristão utiliza contrastes grandes de dinâmica, ou seja, após um trecho de grande volume, segue outro quase imperceptível a fim de valorizar o texto e oferecer dramaticidade a ele, elementos próprios do Romantismo italiano. O mesmo com a variedade de andamentos nos diversos movimentos da música sacra.
São diversos os comentários da interpretação dessas obras nos jornais de Itu da segunda metade do século XIX, fortalecendo o interesse da elite local, dos intérpretes e do compositor, uma febre pela música lírica fora do teatro, que se fortaleceu com o talento e a ousadia do sobrinho de Tristão, José Mariano da Costa Lobo, seu sucessor.




