Mestre de Capela em Itu
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O termo Mestre de Capela é muito antigo, tradição europeia que se estabeleceu no Brasil e faz referência ao músico contratado pela Igreja local para dirigir toda a produção oficial da música sacra. Os pesquisadores Regis Duprat e Marcos Júlio Sergl estudaram a longa tradição dos que atuaram em Itu desde o final do século XVIII. Trazem, inclusive, as patentes de nomeação dos antigos mestres para a Paróquia de Nossa Senhora Candelária, uma das mais prestigiadas da Província de São Paulo, seja porque havia muito recurso financeiro das Irmandades, seja porque, no tempo de Tristão Mariano, o pároco era um desses ricos homens da agroexportação. Viajado, o Padre Miguel percebeu que no Velho Mundo e nos Estados Unidos a Igreja contava com importante estrutura para o serviço da música sacra, parte integrante da liturgia nas celebrações dominicais e nas festas dos dias santos, Natal, tríduo pascal, Corpus Christi e Pentecostes.
Em 1872, o Padre Miguel Correa Pacheco doou ações da Companhia Ituana de Estrada de Ferro e Navegação à Paroquia de Nossa Senhora Candelária com o fim específico de que os seus dividendos fossem aplicados no serviço da música sacra. Vejamos como Tristão mesmo relata esse momento: “Convidou primeiramente aos mestres mais antigos de música em Itu, para a organização da corporação musical de órgão e vozes para as festas e dias santificados da paróquia quando não eram solenes, e com grande orquestra nas festividades do Natal, Semana Santa e Espírito Santo. Como nenhum daqueles mestres quisesse passar o contrato com o Reverendo Vigário, sendo obrigados a abrir uma escola de música, gratuita para os que tivessem habilitações e não pudessem pagar, dando ele (P. Miguel) os dividendos de 60 ações da Companhia Ituana para serem repartidos por aqueles que tomassem parte no coro efetivo da Matriz, então em 1872 convidou o autor destas linhas; que assinou o contrato e teve a felicidade de em sua aula contar discípulos como: José Mariano, Joaquim Mariano Junior, Pacheco Neto, Luiz Grellet, Joaquim Thomaz, Gustavo Aranha, Maria Augusta, Carolina Ferraz, Anna Esméria Lobo e muitos outros que ainda hoje cultivam a música.”
Desta forma, Tristão Mariano se tornou responsável pela música paroquial. Tratou de reunir cantores e instrumentistas, ensinar leitura musical, técnica vocal, ensaiá-los e apresentar a música sacra nos momentos solenes da vida da Igreja. Ele já era membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento e da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, o que conferia prestígio além da questão da cultura religiosa e devocional pessoal. Tornou-se mais prestigiado ainda, um jovem de 26 anos liderando o fazer musical em um tempo e sociedade que tinham na Igreja e em seus solenes ritos os mais importantes encontros sociais e culturais em missas, novenas, procissões e soleníssimos Te Deum.
A passagem de modesto proprietário de bilhar para Mestre de Capela não ofereceu crescimento econômico, afinal, os proventos eram esporádicos e modestos, mas deu visibilidade, sobretudo porque ele era competente compositor.