Quando o coração fala: amor, fé e humanidade  em uma sociedade líquida – Parte I
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por Diác. Tadeu Italiani

Reflexões pastorais a partir da Carta Encíclica do Papa Francisco “Dilexit nos”

Um coração que ama. Ao falar do amor, Jesus frequentemente recorreu à simbologia do coração, lugar onde brotam os sentimentos mais profundos do ser humano. Diante do cotidiano que vivemos, somos convidados a nos perguntar se ainda compreendemos o verdadeiro significado dessa metáfora tão essencial à vida cristã. Em meio a uma sociedade marcada pelo excesso de informações e por relações cada vez mais superficiais, corremos o risco de nos afastar do amor autêntico e, muitas vezes, de não perceber que somos profundamente amados por Deus e chamados também a amar.
Desde a Antiguidade, o coração é compreendido como o centro da vida humana. O filósofo Homero o descreve como o lugar de onde nascem os sentimentos, as emoções e as decisões mais importantes. Para Platão, o coração sintetiza as tendências e a razão de cada pessoa. É ainda, o espaço da sinceridade mais profunda, aquele lugar íntimo onde Deus fala ao ser humano e onde nem sempre é fácil penetrar.
Refletir sobre os sentimentos do coração em uma sociedade fortemente marcada pelo materialismo e pelo racionalismo torna-se um desafio pastoral urgente. Vivemos tempos de fragilidade emocional e de relações líquidas, nas quais o consumo muitas vezes ocupa o lugar do cuidado com o outro. Embora os estudos antropológicos tenham dado pouco espaço ao tema do coração, a filosofia e a espiritualidade cristã sempre reconheceram sua centralidade. Ignorar as virtudes do coração é deixar de lado o amadurecimento humano e espiritual, empobrecendo nossa história pessoal e comunitária e enfraquecendo a inteligência emocional tão necessária para a vida em comunhão.
É do coração que nascem os sentimentos que nos moldam, nos diferenciam e, ao mesmo tempo, nos colocam em profunda comunhão com os irmãos e irmãs. Ele é fonte da nossa identidade espiritual e espaço onde aprendemos a amar, perdoar, compreender e servir.
O coração também é capaz de unir e harmonizar as diversas histórias de nossas vidas, dando-lhes sentido e direção. Maria, Mãe de Jesus, é exemplo dessa espiritualidade do coração: ela guardava tudo em seu coração, dialogando com cada experiência vivida, inclusive ao permanecer de pé aos pés da cruz. Em tempos de Inteligência Artificial e de avanços tecnológicos, somos chamados a não esquecer a poesia do amor que brota do coração, pois é ela que salva o ser humano da indiferença, do egoísmo e da ganância.
É a partir do coração que podemos transformar os ambientes em que vivemos e anunciar, com gestos concretos, a Alegria do Evangelho. Quem ama com o coração aprende a ver com misericórdia, a discernir com sabedoria e a agir segundo a vontade de Deus, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo. Assim, de maneira serena e fraterna, vamos construindo o Reino de Deus, que é Reino de amor, paz, justiça e felicidade.
O Concílio Vaticano II nos recorda a importância de dialogar com o mundo moderno e de oferecer respostas às inquietações que brotam dos vazios do coração humano. Esse diálogo não significa confiar apenas em nossas próprias forças, mas permitir que o amor de Deus, já presente em nós, irradie para o mundo, pois fomos criados à Sua imagem e semelhança.
Para nós, cristãos, o centro da vida é Cristo. Ele é aquele que reúne a humanidade e que, por meio de sua Paixão, Morte e Ressurreição, tornou-se o coração da história humana. É no Coração de Cristo que encontramos a misericórdia do Pai e a cura para as feridas do mundo. O Sagrado Coração de Jesus continua a pulsar de amor pela humanidade, chamando-nos à conversão e à comunhão.

Na próximapublicação,refletiremos sobre os gestos do coração que transformam os ambientes erenovam a vida.