A Missa: ápice da vida cristã

Quem assistiu “A Paixão de Cristo”, obra prima do diretor norte-americano Mel Gibson lançada em 2004, deve lembrar-se que durante todo o drama vivido por Nosso Senhor eram exibidos flashes de Sua infância e vida pública, no pensamento dos personagens. Nessa linha o filme, riquíssimo em simbolismos, associa a cena da crucifixão com a lembrança da noite anterior, de quinta-feira, quando Cristo, reunido com os apóstolos institui a Santíssima Eucaristia, celebra a primeira Missa. Profundamente teológico, o filme, numa belíssima e comovente alternância de cenas, mostra Nosso Senhor tornando o pão Seu sacrossanto Corpo e o vinho Seu precioso Sangue, enquanto é pregado e levantado no madeiro da Cruz e clama pelo perdão para Seus algozes.
Essa associação de imagens não é casual. Com efeito, a cada Missa celebramos, revivemos, temos a feliz oportunidade de participar da paixão e morte de Nosso Senhor, sacrifício da nova e eterna aliança, oferecido pelo próprio Filho de Deus ao Pai Eterno. Não é à toa que a parte central da Missa tem a mesma estrutura dos sacrifícios antigos. Ou seja, o oferecimento dos dons (ofertório), o sacrifício propriamente dito (consagração) e a distribuição da vítima imolada aos participantes (comunhão). É nítido o sentido sacrifical da Missa ao serem consagrados pão e vinho distintamente, pois a separação do corpo e do sangue é símbolo da morte, no caso, de Nosso Senhor, o novo e verdadeiro Cordeiro Pascal.
É muito comum ouvirmos pessoas sensibilizadas com o sofrimento de Cristo na cruz dizerem: “Ah, se eu estivesse lá no Calvário naquele dia, naquela hora…”. Pois é. Não estivemos lá fisicamente mas temos a feliz oportunidade de participar daquele mesmo acontecimento a cada Santa Missa onde, de forma incruenta (ou seja, sem derramamento de sangue), Nosso Senhor renova aquele mesmo sacrifício, pelas mãos do sacerdote. Como nos ensina o Papa Pio XII em sua carta encíclica sobre a sagrada liturgia Mediator Dei, “O augusto sacrifício do altar não é, pois, uma pura e simples comemoração da Paixão e Morte de Cristo, mas um verdadeiro e propriamente dito sacrifício, no qual, imolando-se incruentamente, o Sumo Sacerdote faz o que fez uma vez sobre a Cruz, oferecendo-se totalmente ao Pai eterno como hóstia gratíssima. ‘Uma e mesma é a vítima: e Aquele que agora oferecemos pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que, outrora, se ofereceu na Cruz, divergindo, apenas, o modo de oferecer’ (Concílio de Trento, Sessão XXII)’.” (n.º 61).
De fato, é um mistério só passível de ser compreendido se considerarmos o ato de amor extremo de Cristo que, não contente em sacrificar-se uma única vez por nós, quis que, por meio de Sua Igreja, seu ato redentor fosse renovado a cada minuto na terra, a cada Missa celebrada, até a consumação dos séculos. Assim podemos testemunhar Seu incondicional amor por nós. “É este o significado da Missa: entrar nesta paixão, morte, ressurreição, ascensão de Jesus; quando vamos à Missa é como se fôssemos ao calvário, a mesma coisa. Mas pensai: no momento da Missa vamos ao calvário — usemos a imaginação — e sabemos que aquele homem ali é Jesus. Mas, será que nos permitiríamos conversar, tirar fotografias, dar um pouco de espetáculo? Não! Porque é Jesus! Certamente estaríamos em silêncio, no pranto e também na alegria de sermos salvos. Quando entramos na Igreja para celebrar a Missa pensemos nisto: entro no calvário, onde Jesus oferece a sua vida por mim”, ensinou-nos o Papa Francisco (Audiência Geral de 22/11/2017).
É claro que a Santa Missa também é lembrança da ceia do Senhor, da fração do pão (como inclusive era referida pelos primeiros cristãos), daquela singela refeição pascal de Cristo com seus 12 apóstolos na terrível noite da quinta-feira santa. Sobrepondo-se a esse sentido, no entanto, está o seu caráter sacrifical. Daí ser reprovável a tendência moderna de aniquilar o sentido da Missa em um simples “encontro de irmãos” para uma ceia, nas cada vez mais comuns igrejas projetadas de forma que os fiéis circundem o altar da celebração. O mesmo Pio XII, já em 1947, também exortava desse perigo na Mediator Dei, afirmando que “está fora do caminho aquele que quer restituir ao altar a antiga forma de mesa” (n.º 55).
Não há absolutamente nada mais importante para o cristão que a participação consciente e piedosa da Santa Missa. Mais ainda, não há nada mais importante para a humanidade – passada, presente e futura – que a Santa Missa, mesmo para aqueles que nunca ouviram ou talvez nunca ouvirão falar em Jesus Cristo, pois se, na sua ignorância, alcançam a salvação de sua alma, isso ocorre pela imolação desse mesmo Jesus Cristo – sacerdote, altar e vítima – oferecido ao Pai a cada celebração.
Daí ser necessário que cada um faça uma profunda e sincera reflexão a respeito do lugar que a Santa Missa ocupa em sua vida, do quanto a valoriza e a prioriza a cada Domingo, do quanto se prepara para ela e se mantém, durante ela, unido ao sacerdote que a oferece por nós, e nós com ele.