No Seminário da Glória, em São Paulo (1)
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Vindas de além mar, traziam as Irmãs de São José, no coração, o anseio de dilatar o reinado de Cristo nas almas, e por isso, não poderiam confinar seu zelo missionário à nossa cidade.
Itu apenas era campo muito pequeno para quem trouxera da França, como instrumento ultrapoderosíssimo para ceifar na seara do Senhor, a vontade e a coragem de se imolar, noite e dia, por amor ao Divino Esposo.
Em 1870, doze anos após seus desembarque em chão brasileiro, a Superiora, que já presenteara nossa cidade com um internato modelar, um orfanato, um externato com seção gratuita e a direção da Santa Casa, quis estender seu trabalho a outras paragens, começando pela capital do Estado, que tão generosamente as acolhera.
O Patrocínio começa a se expandir. A semente lançada em Itu amadurece e a todos é dado saber a qualidade dos frutos, na bela floração de jovens aí primorosamente educadas.
Já muitas meninas de 1858 são as mães de família de 1870. O perfume das virtudes adquiridas no Patrocínio transpõe os umbrais de seus lares, na melhor prova de dedicação de suas educadoras. Chega assim até o presidente da então Província de São Paulo a fama das Irmãs de São José e o valor de seus ensinamentos morais e intelectuais. Não quer ele perder a oportunidade de marcar o seu governo com uma realização, que atestará aos pósteros seu grande interesse pela formação de uma juventude digna e honrada. Um dos grandes problemas de sua administração é a continuação do “Seminário da Glória”, criado em 1825 pelo Visconde de Congonhas, e destinado a receber e educar os filhos de militares pobres, mortos em serviço da pátria. Inúmeros fatores concorrem para que o estabelecimento vá de mal a pior. Possivelmente administrado mal, pouco a pouco decai no conceito público, pelos abusos que aí se verificam. O presidente paulista, assoberbado com outros encargos, dificilmente poderia voltar suas atividades para esse orfanato, levando-se ainda em conta o exíguo tempo de seu mandato – um ano apenas. Compreende-se pois a balbúrdia que permite aos empregados aproveitarem a situação, desviando o dinheiro, cada um querendo enriquecer à custa das verbas destinadas ao educandário. Tamanha irresponsabilidade não tarda a dar frutos. E o resultado é que se órfãs se veem privadas até mesmo do necessário, o que leva uma antiga aluna a afirmar: “Não é de espantar que sejamos tão miseráveis; quando todos se servem resta bem pouco para nós.”
Só mesmo a caridade de pessoas generosas impede que as meninas passem fome. Às ocultas, sempre lhes levam o que comer. Tal estado de coisas abala a cidade e os jornais começam a estampar artigos violentíssimos contra o pessoal da casa, reclamando a atenção do governador, principal responsável pelo estabelecimento.

15 de junho de 1957

Maria Cecília Bispo Brunetti
Acervo – Museu da Música – Itu