A pobreza só se ouve no silêncio do coração
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A cada dia se torna mais difícil e complicado ouvir nosso próximo, principalmente se esse irmão vive em condições diferentes das nossas, não tendo o conforto de, todas as noites nas baixas temperaturas, uma refeição quente e saborosa na mesa. É complexo ouvir aqueles que vivem na pobreza e que, muitas vezes, são marginalizados por uma sociedade perversa que não olha para o ser humano com o olhar do amor de Deus.

O Salmo 34 nos permite uma profunda reflexão sobre o clamor dos irmãos que vivem na pobreza, pelos quais somos convidados pela Igreja, a ter um olhar e escutar o clamor para identificar e reconhecer as suas necessidades.

Nossos irmãos, que por diversas circunstâncias, vivem muitas vezes solitários e excluídos, não têm voz para clamar por algo. Com o coração dilacerado e em uma profunda tristeza, na maioria das vezes buscam alento para suas dores na bebida. Porém aos nossos olhos humanos, os pobres podem parecer abandonados, mas Deus os ouve. Nesse sentido, podemos compreender aquilo que proclamou Jesus com a Bem-aventurança: “felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino de Céus. (Mt 5,3)

A situação de pobreza não se esgota em um brado de socorro, mas atravessa o céu e chega a Deus, como aqueles que estão desiludidos e perderam a esperança. Esse grito muitas vezes não chega a nós, pois, por muitas vezes somos indiferentes e apáticos à dor do irmão. Temos várias ações pontuais em relação aos pobres, mas que visam apenas acalentar as nossas consciências, pois nada fazermos de concreto. Para termos obras coerentes com a realidade dos irmãos que vivem na pobreza, é preciso silenciar nossos corações e desprendermo-nos da cultura do individualismo para enxergar verdadeiramente as necessidades e ouvir o clamor sofrido dos irmãos.

A resposta perfeita que podemos dar aos pobres é a doação que sai de dentro do nosso coração e que resulta em atitudes, obras e ações de amor para com os mais desfavorecidos. Assim como Deus fez com Abraão e Sara e com o povo que caminhou por quarenta anos no deserto, dando-lhes o sustento necessário para continuar na caminhada.

Papa Francisco nos diz na Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, do ano de 2018: “A resposta de Deus ao pobre é sempre uma intervenção salvadora para cuidar das feridas da alma e do corpo, repor a justiça e ajudar a retornar à vida com dignidade. A resposta de Deus é também um apelo para que toda a pessoa que acredita n´Ele possa, dentro dos limites humanos, fazer o mesmo.”

Precisamos ter sempre firmes em nossas mentes, que a pobreza não é procurada, mas criada pelo egoísmo, soberba, avidez, violência e injustiças. A ação que liberta da miséria é a busca pela salvação no Senhor, as amarras da pobreza são quebradas pelo poder da intervenção do amor de Deus.

Voltemos nossos olhares para o cego Bartimeu, que à beira da estrada procurava o sentido da sua vida, até que reconhece Jesus. O que fizeram os discípulos ao verem Ele se manifestar e vai ao entro do Jesus? Calaran-no. Mas alguém o encorajou a se levantar e ir ao encontro do Senhor. Ainda hoje vemos várias vozes calando o clamor dos pobres. Vozes desafinadas que destoam da voz do Cristo e que promovem enormes abismos de fobia, insegurança, rotulando os pobres como indigentes que devem ser mantidos longe do convívio social.

Um olhar cristão e palavras de esperança podem trazer ao pobre aquilo que nenhum bem material lhe poderá ofertar. A esperança e a dignidade para buscar o sentido de sua vida.

Todos nós somos um pouco devedores para com os pobres, é preciso estender mais as mãos ao invés de assinalar defeitos e mazelas, o encontro com a salvação se sustenta com a fé, que se torna concreta na ação caritativa.