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Diác. Celso Majoral
Paróquia São João Batista

“Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros.”

Evangelho (Jo 13,31-33a.34-35)

O Evangelho fala da glorificação de Cristo. Se o Filho do homem age de modo a manifestar a glória de Deus, muito logo também Deus dará sua glória ao Filho. Qual é essa glória? A glória era a melhor coroa dos reis, seja pela riqueza que possuíam, seja pelo poder que exerciam ou ainda pelo brilho do reinado. Quando o Salmista canta o ser humano como rei da criação, coloca-o como um ser um “pouco inferior a Deus, coroado de brilho e esplendor, com poder sobre ovelhas e bois, animais selvagens, aves do céu e peixes do mar”(cf. Sl 8,6-9). Mas já o Antigo Testamento observava que essa glória, baseada na posse, no poder, no prestigio, é relativa e passageira: “Não e exasperes, quando alguém se torna rico, quando cresce a glória de sua casa. Ao morrer, nada levará consigo e sua glória não o acompanhará depois da morte

Quando o demônio tentou Jesus no deserto pela terceira vez, ofereceu “todos os reinos do mundo com sua glória(cf. Mt 4,8)”. Isto é, o diabo ofereceu todas as riquezas, poder o prestígio e fama. A resposta de Jesus manifesta claramente que a verdadeira glória está na adoração e no serviço do Senhor(cf. Mt 4, 10). Esse ensinamento volta muitas vezes nas pregações e nos exemplos de Jesus e, sobretudo, em seu próprio exemplo. Por isso, os pobres e os marginalizados podem dar glória a Deus e serem eles mesmos glorificados, ainda que nada tenham a não ser o desprezo da sociedade.

Jesus viveu a sua paixão e morte da forma mais elevada de glorificar a Deus, porque estava cumprindo à risca a vontade do Pai. João deixa claro que toda a paixão é um caminho de glorificação do Pai, por parte de Jesus; e de Jesus, por parte do Pai. Jesus, portanto, glorifica o Pai, salvando a humanidade com sua morte na Cruz, porque era à vontade do Pai. E o Pai glorifica a fidelidade de Jesus, salvando-o da morte, fazendo-o ressurgir e sentar-se à sua direita.

Como Jesus, os discípulos devem trilhar o mesmo caminho. A comunidade eclesial, depois da Páscoa, não tem outra glória a buscar senão a de fazer a vontade do Pai, isto é, salvar a humanidade e fazer acontecer entre nós as alegrias eternas. E essa salvação passa necessariamente pela Cruz. Cada discípulo é convidado a dar ao Pai a mesma glória que Jesus lhe deu. Não em palavras e culto apenas. Mas na doação inteira de si mesmo em benefício de outros. O caminho do Calvário não aconteceu uma única vez com uma só vitima. Repete-se em cada discípulo, que se despoja a si mesmo, assumir a condição de servo de todos, viver solidário com todos, exatamente como fez Jesus. Todas as outras glórias são vãs e passageiras.

A proposta cristã se resume no amor. É o amor que nos distingue, que nos identifica; quem não aceita o amor, não pode ter qualquer pretensão de integrar a comunidade de Jesus. Nos dias de hoje falar de amor pode ser equívoco…

A palavra “amor” é tantas vezes usada para definir comportamentos egoístas, interesseiros, que usam o outro, que fazem mal, que limitam horizontes, que roubam a liberdade… Mas o amor de que Jesus fala é o amor que acolhe, que se faz serviço, que respeita a dignidade e a liberdade do outro, que não discrimina nem marginaliza. que se faz dom total (até à morte) para que o outro tenha mais vida. O amor de Jesus é a face misericordiosa do Pai.